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terça-feira, 18 de março de 2014

Conhecendo o Arminianismo (parte 5) – Perseverança condicional dos santos

Finalmente chegamos ao último ponto do arminianismo: a perseverança dos santos. Esse assunto é também conhecido como “segurança da salvação” ou “segurança eterna”. Os assuntos discutidos aqui, dizem respeito à possibilidade de apostasia do cristão e à potencial perda da salvação. Se o cristão pode perder sua salvação, como podemos ter certeza dela, visto que esta é uma doutrina pregada tanto por calvinistas quanto por arminianos? Será que “uma vez salvo, salvo para sempre”? Champlin comenta que, essa questão “é um antigo campo de batalha da teologia cristã, com exércitos bem postados de ambos os lados, atrás de seus textos de prova bíblicos”.[1]
Este é, talvez, o ponto mais difícil de se discutir, pois envolve muitos conceitos e a forma como conceituamos as terminologias pode fazer uma enorme diferença. Se perguntarmos, por exemplo, um verdadeiro cristão perde sua salvação? Seria possível que um arminiano dissesse inequivocamente: claro que sim! Todavia, se ele é um verdadeiro cristão, ele permanece selado com o Espírito Santo, penhor (garantia) da nossa salvação. Em contrapartida, se perguntarmos: um verdadeiro cristão pode cair da graça, apostatar-se da fé e desviar-se de Cristo, vindo nesse caso a perder a salvação? Aí a pergunta muda de figura, pois estamos posicionando o questionamento para uma perseverança condicional do cristão.
Vamos deixar para responder a essas perguntas mais adiante. Por enquanto é válido comentar que o arminianismo clássico não opinou claramente a esse respeito. O arminianismo wesleyano, por sua vez, diz que sim, o cristão pode cair da graça. E o calvinismo defende que o cristão (o verdadeiro) nem cai da graça e nem perde sua salvação. Portanto, para finalizarmos nossos estudos, vale a pena verificarmos todas as posições e chegarmos numa conclusão o mais biblicista possível. Vejamos...

Artigo IV – Remonstrância
“Que aqueles que são enxertados em Cristo por uma verdadeira fé, e que assim foram feitos participantes de seu vivificante Espírito, são abundantemente dotados de poder para lutar contra Satã, o pecado, o mundo e sua própria carne, e de ganhar a vitória; sempre – bem entendido – com o auxílio da graça do Espírito Santo, com a assistência de Jesus Cristo em todas as suas tentações, através de seu Espírito; o qual estende para eles suas mãos e (tão somente sob a condição de que eles estejam preparados para a luta, que peçam seu auxílio e não deixar de ajudar-se a si mesmos) os impele e sustenta, de modo que, por nenhum engano ou violência de Satã, sejam transviados ou tirados das mãos de Cristo [Jo 10.28]. Mas quanto à questão se eles não são capazes de, por preguiça e negligência, esquecer o início de sua vida em Cristo e de novamente abraçar o presente mundo, de modo a se afastarem da santa doutrina que uma vez lhes foi entregue, de perder a sua boa consciência e de negligenciar a graça – isto deve ser assunto de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo com inteira segurança.”

A posição calvinista
Para os calvinistas, não há possibilidade do verdadeiro cristão[2] cair da graça, pois sua perseverança final está “fundamentada na eleição eterna de Deus”.[3] É o que vimos em nosso primeiro artigo. Ensinar algo que contrarie esse posicionamento, gera uma inconsistência lógica. Se Deus em Seus decretos eternos e soberanos elegeu o salvo, realmente não faz sentido que este caia da graça. Alguns até poderiam pensar na possibilidade de uma predestinação para a apostasia, mas na lógica calvinista não espaço para esse pensamento, visto que os demais pontos estão interligados.
Já que nosso assunto é a perseverança dos santos, vejamos algumas definições dessa doutrina na visão calvinista. Hoeksema define-a como sendo “uma ato da graça de Deus pelo qual ele preserva os crentes e santos em Cristo Jesus, em seu poder por meio da fé, até o fim para a salvação e glória, de forma que eles lutam o bom combate da fé, e de forma que nunca possam cair da graça uma vez que receberam.”[4]
A. A. Hodge, por sua vez, define-a como “a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa. Os crentes continuam de pé até o fim, porque Deus nunca abandona sua obra.”[5]
A definição de Berkhof não é diferente: “A doutrina da perseverança dos santos tem o sentido de que aqueles que Deus regenerou e chamou eficazmente para um estado de graça não podem cair nem total nem definitivamente, mas certamente perseverarão nele até o fim e serão salvos para toda a eternidade”.[6] Trata-se da “contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa.”[7]
Berkhof diz, ainda, que a doutrina da perseverança “não pretende ensinar apenas que os eleitos serão certamente salvos no final, (...) mas ensina mui especificamente que aqueles que uma vez foram regenerados e chamados eficazmente por Deus para um estado de graça, jamais poderão cair completamente desse estado e, daí, deixar de alcançar a salvação eterna, apesar de poderem, às vezes, ser dominados pelo mal e cair em pecado.”.[8]
Uma vez definida a doutrina, podemos verificar que a posição calvinista realmente não concebe a ideia de que o verdadeiro cristão possa cair da graça. O Cânone 5.9, do Sínodo de Dort, por exemplo, declarou que, “os crentes podem estar certos e estão certos dessa preservação dos eleitos para a salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé.” Ainda segundo o cânone, “esta certeza ocorre de acordo com a medida de sua fé, pela qual eles creem que são e permanecerão verdadeiros e vivos membros da Igreja, e que tem o perdão dos pecados e a vida eterna.”
A confissão de fé de Westminster declara que, “os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos.” Conforme já vimos, “esta perseverança dos santos não depende do livre arbítrio deles, mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça”.
Bem, na prática, vemos pessoas que chegam em nossas igrejas, ficam cheias de fé e acabam depois de certo tempo abandonando a Cristo. Como o calvinismo explica isso? Ferreira e Myatt comentam que, a posição calvinista “não ensina que todos que professam a fé cristã são sustentados em sua peregrinação para o céu”, pois “a apostasia é um perigo real dentro da comunidade cristã. Muitos já professaram as realidades do evangelho como verdadeiras, mas, em algum momento, abandonaram a fé e morreram fora da igreja e longe dos ensinos evangélicos.”[9]
Destarte, o calvinismo faz distinção entre os verdadeiros e os falsos cristãos. Os primeiros não apostatam da fé, pois receberam a fé salvadora. Todavia, o segundo grupo tem algum tipo de fé espúria ou temporária. Os que “apostatam da fé”, portanto, na verdade não apostatam da fé, pois não tinha fé salvadora para se apostatarem.
Segundo os calvinistas, é isso que João queria dizer em sua primeira epístola quando declarou a respeito dos gnósticos: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos” (1 Jo 2.19). Só que para admitirmos isso, João teria que se contradizer no verso 24: “Portanto, o que desde o princípio ouvistes, permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também vós permanecereis no Filho e no Pai.” (grifos meus).[10]
Um dos maiores problemas relacionados a esse tipo de pensamento é uma tendência ao antinomianismo, ou seja, um relapso para com a santificação. Algumas pessoas ficam psicologicamente confortadas com a “segurança” da sua salvação que vivem como se não houvesse problema nenhum praticar o pecado. Gosto das palavras de Ferreira e Myatt: “Afirmamos que não existe perseverança sem santificação, pois não existe justificação sem regeneração. Toda árvore boa produz fruto bom.”[11]

A posição arminiana clássica
A posição arminiana clássica não difere “exatamente” da posição calvinista no tocante à perseverança dos santos. Digo isso porque Armínio não chegou a se posicionar se o cristão pode ou não cair da graça. Vejamos algumas de suas considerações sobre a perseverança dos santos em suas declarações a respeito da Confissão Holandesa e do Catecismo de Heidelberg.[12]
Armínio começa suas ponderações dizendo que, depois que a pessoa é regenerada, ela recebe a capacitação de Deus para lutar contra o pecado e contra as tentações do inimigo de nossas almas. Não se trata, portanto, de uma capacidade própria, mas de uma capacitação do Espírito Santo. Nas palavras de Armínio, “as pessoas que foram enxertadas em Cristo pela fé verdadeira, e foram, dessa forma, feitas participantes de seu Espírito vivificante, possuem poderes [ou força] suficientes para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo e sua própria carne, e obter a vitória sobre estes inimigos - todavia não sem a assistência da graça e o mesmo Espírito Santo.”
 Essa capacitação também vem da ajuda de Cristo, que “pelo seu Espírito, as assiste em todas as suas tentações, e lhes proporciona a pronta ajuda de sua mão; e, visto que elas se encontram preparadas para a batalha, imploram sua ajuda, e se não estiverem em falta com elas mesmas, Cristo as preserva de cair.” Jesus disse que ninguém arrebata Suas ovelhas de Suas mãos (Jo 10.28) e Armínio concorda com isso, quando diz: “Então não é possível que sejam, por quaisquer das astutas ciladas ou poder de Satanás, seduzidas ou arrancadas das mãos de Cristo.”
Satanás e suas hostes malignas não são nem de longe mais fortes que nosso Cristo. A ideia dualista[13] ensinada pelos movimentos de batalha espiritual, de que o diabo está numa constante queda de braço com Deus é errada, é um sincretismo do maniqueísmo.[14] Nós, arminianos, não cremos que o diabo, juntamente com seus anjos caídos, tenha poder para tomar uma ovelha das mãos de nosso Sumo Pastor. A ideia é se a própria pessoa, por negligência, influência ou outros fatores internos e/ou externos, possa vir a decidir abandonar a Cristo.
Armínio não tinha isso ainda delineado e disse: “...julgo ser útil e será um tanto necessário em nossa primeira assembleia [ou Sínodo], estabelecer uma diligente pesquisa nas Escrituras, se não é possível que alguns indivíduos, pela negligência ao abandonar o começo de sua existência em Cristo, apegar-se novamente ao presente mundo mau, desviar da sã doutrina que lhes foi uma vez entregue, perder uma boa consciência, e fazer com que a graça divina seja ineficaz.”
O próprio Armínio nunca havia ensinado que “um verdadeiro crente pode, total ou finalmente, abandonar a fé, e perecer”, mas a presença de passagens esciturísticas que ensinam esse aspecto o deixavam balançado, ao ponto das “respostas a elas que tive a oportunidade de ver não se mostraram, em minha opinião, convincentes em todos os pontos.” “Por outro lado”, dizia Armínio, “certas passagens são fornecidas para a doutrina contrária [da perseverança incondicional] que merecem especial consideração.”
Embora Armínio não tenha se posicionado sobre a condicionalidade da perseverança, ele sabia que tanto a salvação quanto a preservação dos santos “tem seu fundamento na presciência de Deus, através da qual Ele conhecia desde toda a eternidade aqueles indivíduos que, através de sua graça preventiva, creriam, e através de sua graça subsequente perseverariam (…) Ele também sabia quem não iria crer e perseverar.“[15]
Podemos ver que os remonstrantes, como bons discípulos, seguiram o mesmo caminho de Armínio: “...quanto à questão se eles não são capazes de, por preguiça e negligência, esquecer o início de sua vida em Cristo e de novamente abraçar o presente mundo, de modo a se afastarem da santa doutrina que uma vez lhes foi entregue, de perder a sua boa consciência e de negligenciar a graça – isto deve ser assunto de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo com inteira segurança.”


(...)

Leia mais em: COUTO, Vinicius. Introdução à Teologia Armínio-Wesleyana. Reflexão, 2014.


Notas


[1] CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclópedia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Volume 6, 1991, Candeia, p. 131.
[2] Os calvinistas gostam de reforçar a expressão “verdadeiro cristão” ou outras similares, a fim de mostrar que, embora empiricamente vejamos pessoas que se apostatam da fé, esses não eram “verdadeiros cristãos”.  A passagem bíblica mais usada por eles para defender essa ideia é 1 Jo 2.19: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos.” Explicaremos essa ideia logo adiante.
[3] HOEKSEMA, Herman. Reformed Dogmatics. 2004, Volume 2, Reformed Free Publishing Association, p. 176.
[4] Ibid, p. 175.
[5] HODGE Apud FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. 2007, Vida Nova, p. 883.
[6] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2012, Cultura Cristã, p. 501.
[7] Ibid, p. 502.
[8] Ibid, p. 501.
[9] FERREIRA; MYATT. Ibid, p. 884.
[10] O texto grifado mostra claramente a condicionalidade da perseverança. A conjunção “se” (άν – translit. ean), é uma partícula condicional, que segundo o léxico de Thayer (1437 no léxico de Strong), refere-se ao tempo e à experiência, introduzindo algo futuro e potencial, portanto, não determinado. Podemos comparar o uso dessa conjunção condicional em passagens como Mt 6.22,23; 17.20; Lc 10.6; Jo 7.17; 8.54; At 5.38; At 13.41; Rm 2.25 e 1 Co 9.16, dentre outras.
[11] FERREIRA; MYATT.Op. Cit., p. 884.
[12] ARMINIUS, James. A Declaration of the Sentiments of Arminius on Revision of the Dutch Confession & Heidelberg Cathecism. In: _____. Works of James Arminius. Volume 1, Christian Classics Ethereal Library, p. 176.
[13] O dualismo é a ideia de duas forças iguais e opostas que estão em constante ou eterna disputa.
[14] Maniqueísmo movimento fundado por Mani, que foi considerado com o último dos gnósticos. Ele nasceu por volta de 216 d.C. na Babilônia e ensinava que Deus usou diversos servos, como Buda, Zoroastro, Jesus e, finalmente, ele mesmo, o profeta final (paracleto, como ele afirmava). Dizia, ainda, que o universo é dualista, isto é, existem duas linhas morais em existência, distintas, eternas e invictas: a luz e as trevas. Segundo os maniqueístas, essas duas forças cósmicas eram iguais, porém, opostas entre si. As ideias de Mani foram refutadas por Orígenes e Agostinho, sendo ainda rejeitadas pela Igreja por contrariar a Soberania de Deus em controlar todas as coisas, além de ser satanás uma mera criatura, diferentemente da forma como o consideravam.
[15] ARMINIUS, James. Op. Cit., p. 170.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Conhecendo o Arminianismo (parte 4) – Graça preveniente

Recapitulando nossa série de artigos: falamos inicialmente sobre eleição corporativa de Deus segundo Sua presciência. Em seguida, sobre a expiação de Cristo por toda a humanidade. Em nosso terceiro ponto mostramos a inabilidade total do homem em se achegar a Deus. Chegamos, agora, em nosso quarto ponto: a graça preveniente. Poderíamos renomear nossa série de artigos como “doutrinas da graça segundo o arminianismo”.[1]
Já vimos que calvinistas e arminianos concordam com a doutrina da depravação total e que sem a ação divina, o ímpio não tem condições de escolher Deus, pois está inclinado para o pecado. Pensando nisso, vêm algumas perguntas em nossas mentes: como acontece a salvação? É um ato monergista ou sinergista? Discorreremos, no presente artigo, a respeito da ordem da salvação e sobre os conceitos de graça, graça preveniente e graça irresistível.

Artigo IV – Remonstrância
“Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.”

Ordo salutis
Ambas as posições (calvinista e arminiana) possuem sua lógica. A teologia calvinista começa seu raciocínio pela corrupção humana em Adão. Esta depravação total, não apenas da vontade, mas do pensamento, atos e emoções do homem, é um impedimento para o próprio homem de se achegar a Deus. Porém, Deus já havia decretado desde a eternidade, salvar alguns destes pecadores que não merecem a salvação, visto que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Se Deus já havia elegido essas pessoas, pois está no controle de tudo, Ele consolida Seu plano através do sacrifício de Cristo por essas pessoas. Realmente não faz sentido Cristo morrer por outras pessoas, se essas outras pessoas não serão salvas, seria desperdiçar o Sangue de Jesus. Visto que nem mesmo os eleitos são capazes de se voltarem para Deus, é necessário que uma obra divina os liberte do domínio do pecado. A esta obra, os calvinistas chamam de “graça irresistível”. Uma vez que a pessoa irresistivelmente está em Cristo, ela não cai desta graça.
Em contrapartida, a lógica arminiana toma outro rumo: somos sim, eleitos. Não individualmente, mas corporativamente. Não segundo a vontade soberana de Deus,[2] mas segundo Sua presciência. Deus está no controle de tudo, sem controlar tudo. A eleição da Igreja é baseada no amor de Deus que excede todo entendimento (Ef 3.19), o qual “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Jesus “é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2.2). Jesus morreu por todas as pessoas e isso torna a salvação potencial a todas as pessoas. A eleição é condicional, “quem crer (...) será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16.16), pois “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). Todavia, o homem foi afetado pela queda de Adão e a humanidade está corrompida pelos efeitos do pecado, não havendo “quem entenda” ou que “busque a Deus” (Rm 3.11). Somente um ato gracioso de Deus para convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo. Chamamos esse ato de “graça preveniente”. Se o salvo pode cair dessa graça ou não, será assunto para nosso último artigo.
Ambas as lógicas nos levam a uma sequencia salvífica também diferente. A essa sequencia chamamos de ordo salutis, expressão latina cujo significado é “ordem da salvação”. Hoeksema, teólogo calvinista, define a ordo salutis como “o arranjo ou a ordem na qual os vários benefícios da salvação em Cristo são aplicados ao pecador eleito.”[3] O erudito arminiano, Olson, conceitua-a como “uma tentativa de colocar em ordem lógica e não cronológica, os eventos que antecedem, que ocorrem durante e que sucedem a salvação inicial de uma pessoa”.[4]
Embora tenhamos uma sequencia lógica, não há uma cronologia que pode facilmente ser delineada, pois os acontecimentos são simultâneos, ou seja, “não ha intervalo de tempo na obra da salvação em nossos corações — com a única exceção da santificação, já que ela é um processo iniciado na conversão, mas que só encontrara sua consumação nos novos céus e terra.”[5]
Na elaboração de Calvino, teríamos a ordem da salvação da seguinte forma: 1) União Mística; 2) Fé; 3) Arrependimento; 4) Reconciliação; 5) Regeneração e 6) Justificação & Santificação.[6] Strong seguiu quase que o mesmo raciocínio, exceto que separou a justificação da santificação e afirmou o seguinte arranjo: 1) Eleição; 2) Vocação; 3) União com Cristo; 4) Regeneração; 5) Conversão (arrependimento e fé); 6) Justificação; 7) Santificação e 8) Perseverança.[7] Mais próximo ainda de Calvino está Berkhof, que seguiu ordenou a salvação da seguinte maneira: 1) União Mística; 2) Regeneração e Vocação Eficaz; 3) Conversão (arrependimento e fé); 4) Justificação; 5) Santificação e 6) Perseverança dos santos.[8]
A Confissão de fé de Westminster, principal declaração de fé utilizada pelas igrejas reformadas, ou melhor, calvinistas, e principal declaração adotada oficialmente pela IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), enumera em seus capítulos de X a XVII (exceção do XVI que fala de boas obras), sua ordo salutis: 1) Vocação Eficaz; 2) Justificação; 3) Adoção; 4) Santificação; 5) Fé Salvadora; 6) Arrependimento e 7) Perseverança dos santos.
Do lado arminiano podemos citar a ordem de Olson: 1) Graça eletiva de Deus em Cristo de todos os que creem nele; 2) Expiação de Cristo, reconciliando todos os pecadores da morte; 3) Graça preveniente dada por Deus aos pecadores por meio da Palavra (chamando, convencimento, iluminação, capacitação); 4) Conversão (arrependimento e fé) capacitado pela graça preveniente; 5) Regeneração, justificação, adoção, união com Cristo, habitação do Espírito Santo; 6) Santificação e 7) Glorificação.[9]
John Wesley cita em seu sermão “Sobre a realização da nossa própria salvação”, uma ordo simplificada: 1) a Graça preveniente (salvadora); 2) a Graça convencedora (arrependimento e fé); 3) a Justificação e 4) a Santificação.[10] Obviamente que podemos acrescentar aqui a presciência como sendo o primeiro item e a glorificação como sendo o último.
Ward, teólogo wesleyano, enumera a ordo da seguinte forma: 1) Presciência divina; 2) Graça Preveniente; 3) Graça Convencedora; 4) Graça Justificadora (Santificação Inicial); 5) Regeneração; 6) Crescimento na Graça; 7) Inteira consagração; 8) inteira Santificação; 9) Crescimento na Graça e 10) Glorificação.[11] Podemos retirar dessa lista os itens 6, 7, 8 e 9. Os itens 6 e 9 porque tratam de um crescimento espiritual, não necessariamente um evento que caracterize a salvação, mas o efeito da mesma e os itens 7 e 8 porque são doutrinas mais específicas do wesleyanismo a respeito da segunda bênção ou batismo no Espírito Santo. Estes últimos principalmente não devem fazer parte desta lista porque senão teremos que admitir que todos os cristãos têm de passar por essa experiência e tenho certeza, como bom teólogo nazareno, que não era isso que Ward queria dizer em sua exposição.
Pode parecer à primeira instância que, “a ordem dos tratores não altera o barulho”,[12] mas a ideia desse processo salvífico é importante, pois como comenta o reverendo Ronald Hanko, a ordem da salvação “descreve a obra do Espírito de Deus em nós”.[13] Olson complementa sua importância na área missiológica, pois seu impacto é diretamente proporcional ao nosso entendimento e atuação na evangelização dos perdidos, visto que “sem arrependimento e fé, capacitados pela graça preveniente, não se pode ser totalmente salvo”.[14] Outro exemplo de sua importância é o caso da justificação, a qual “deve preceder a santificação, caso contrário temos a doutrina Romana da justificação pelas obras.”[15]
Conforme vimos, a principal diferença entre a ordem da salvação nas teologias arminiana e calvinista se dá no tocante à regeneração. Para os calvinistas ela se dá antes do novo nascimento e para os arminianos, depois. Estes creem que o Senhor atua inicialmente com a graça preveniente e então capacita o homem a crer. Depois de receber a Cristo é que ocorrem os demais pontos da nossa ordo salutis (arrependimento, fé, regeneração, justificação, adoção, união com Cristo e habitação do Espírito Santo). Aqueles, por sua vez, creem que primeiro Deus regenera o homem, o qual somente depois do novo nascimento é que recebe fé para se arrepender, sendo justificado e santificado.
A tese calvinista é mais primordialmente baseada em Rm 8.29,30, entretanto, Paulo não está interessado ali em formar uma ordo, mas em dar um panorama da obra de Cristo e seus efeitos para com os redimidos. Ademais, se colocarmos a fé depois do novo nascimento, contrariaremos não as palavras de Armínio, Wesley ou outro teólogo, mas a própria Palavra de Deus, como podemos observar em passagens escriturísticas como Mc 1.14,15; At 2.38; 11.21 e principalmente Rm 10.9-15. Inevitavelmente, se a fé vem depois do novo nascimento, não há necessidade de pregar o Evangelho, pois com ou sem a pregação a pessoa será salva em algum momento em função dos decretos divinos.[16]

(...)

Leia mais em: COUTO, Vinicius. Introdução à Teologia Armínio-Wesleyana. Reflexão, 2014.

 
Notas




[1] Gostaria de fazer uma ressalva sobre esse ponto. Tradicionalmente, temos as doutrinas arminiana e calvinista como os pressupostos ortodoxos sobre as doutrinas da graça. Embora ambos os pontos de vista sejam praticamente opostos, são aceitos como teologicamente corretos pelos eruditos. Atualmente, há vários pregadores que vêm ensinando uma visão da graça que não se encaixa em nenhuma das duas vertentes teológicas. Um desses pregadores é um pastor cingapuriano chamado Joseph Prince, autor do Best-seller, “Destinados a Reinar”. Vale muito a pena alertar aos pastores, líderes e mesmo irmãos na fé que, os ensinos de Prince são recheados de questões heterodoxas e é uma distorção das doutrinas da graça. Para maiores informações, consultar COUTO, Vinicius. As heresias de Jospeh Prince. Disponível em: http://www.cacp.org.br/as-heresias-de-joseph-prince/.
[2] Refiro-me aqui à ideia de que Deus soberanamente elege alguns para a salvação e outros para a danação. Obviamente que, a vontade soberana de Deus é constatada em toda a Bíblia (cf Is 43.13; Jó 42.2).
[3] HOEKSEMA, Herman. Reformed Dogmatics. 2004, Volume 2, Reformed Free Publishing Association, p. 16.
[4] OLSON, Roger. Na Arminian Ordo Salutis (Order of salvation). Disponível em: http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2013/08/an-arminian-ordo-salutis-order-of-salvation/. Acesso em 07/03/2014.
[5] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. 2007, Vida Nova, p. 737.
[6] Ibid, p. 738.
[7] STRONG, A. H. Teologia sistemática. Volume 2, 2007, Hagnos, pp. 1399-1558.
[8] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2012, Cultura Cristã, pp. 383-504.
[9] OLSON, Roger. Op. Cit., idem.
[10] BURTNER, Robert W.; CHILES, Robert. E. (org.). Coletânea da Teologia de João Wesley. 1995, Colégio Episcopal, p. 130.
[11] WARD, David B. Wesleyan Theology of Salvation and Preaching. Disponível em: http://wesleyansermons.com/2013/08/26/wesleyan-theology-of-salvation-and-preaching/. Acesso em 07/03/14.
[12] Trocadilho com a frase que aprendemos no ensino fundamental para as operações matemáticas de multiplicação: “a ordem dos fatores não altera o produto”, ou seja 8 x 3 é a mesma coisa que 3 x 8.
[13] HANKO, Ronald. Doctrine According to Godliness. 2004, Reformed Free Publishing Association, pp. 185,186.
[14] OLSON, Roger. Op. Cit. Idem.
[15] HANKO, Ronald. Op. Cit., p. 186.
[16] Vale ressaltar que, os calvinistas não ensinam que a pessoa é salva sem a pregação do Evangelho. Para eles, a pregação é meio que Deus escolheu. Todavia, é inevitável que não raciocinemos conforme propus quando analisamos a ordo calvinista.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Conhecendo o Arminianismo (parte 3) – Depravação Total

Já abordamos, em nossa sequencia de artigos, dois pontos do arminianismo: o primeiro a respeito da eleição e o segundo sobre a expiação. Já foi possível constatar que, Deus elegeu corporativamente a Igreja e que Jesus morreu por todos, fazendo expiação pelos pecados da humanidade e tornando a salvação potencial. Aquele que crer será salvo, relatou Marcos, provavelmente sob a supervisão de Pedro (Mc 16.16). Essa passagem nos dá a ideia de que o homem pode escolher positiva ou negativamente a opção de Deus, pois aquele que não crer será condenado.
Como entendermos essa questão? O homem, por si só, realmente tem condições de escolher a Deus? Até que ponto os efeitos da queda atingiram a raça humana? O arminianismo ensina o livre-arbítrio e o calvinismo, por sua vez, ensina a livre-agência. Qual seria a diferença entre as duas terminologias? Veremos, doravante, a explicação da doutrina da depravação total, e as perguntas supracitadas poderão ser respondidas no decorrer de nossa exposição.

Artigo III – Remonstrância
“Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom, segundo a Palavra de Deus [Jo 15.5].”

Depravação total no Calvinismo
A palavra depravação, segundo qualquer dicionário de português, significa, nada mais nada menos, do que corrupção ou perversão. É a nossa tendência pecaminosa, nossa inclinação para o mal. É a herança de Adão: “...por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram” (Rm 5.12).
Essa tendência pecaminosa pode ser vista até mesmo em seres inocentes como as crianças. Qual é o pai que ensina seu filho de dois anos a mentir? Mesmo assim, quando tal criança apronta alguma travessura, ela trata logo de mentir para se livrar da bronca. Quem ensina as crianças a serem desobedientes, egoístas, briguentas, pirracentas e rebeldes? Entretanto, naturalmente, essas mazelas aparecem livre e espontaneamente, cabendo aos pais educar tais crianças. Chamamos isso de pecado original, ou seja, a herança de Adão.
Depois da queda, portanto, o homem passou a viver com tendência para o mal, nossa natureza foi corrompida e se tornou propensa para o pecado. Esses conceitos são idênticos nas teologias calvinista e arminiana. Para início de conversa, podemos citar Sproul, presidente da Reformation Bible College e pastor auxiliar da Saint Andrew’s Chapel na cidade de Sanford, na Flórida. Ele disse que não somos pecadores porque pecamos, mas que pecamos porque somos pecadores, pois herdamos de Adão uma condição corrupta de pecaminosidade.[1]
Berkhof salienta que, o pecado de Adão trouxe cinco consequências para a humanidade: 1) a depravação total da natureza humana, 2) a perda da comunhão com Deus, 3) uma consciência corrupta, 4) mortes espiritual e física e 5) expulsão do Éden e proibição de comer da árvore da vida.[2]
O reverendo Ronald Hanko, pastor da Lynden Protestant Reformed Church, comenta em uma de suas obras que, “a palavra depravação refere-se à nossa pecaminosidade e impiedade” e que usamos essa palavra “para enfatizar o fato de que somos muito ímpios aos olhos de Deus”, estando, consequentemente, “em grande necessidade de sua salvação”.[3]
Hanko acrescenta, ainda, que a palavra “depravação” associada ao uso de “total”, quer dizer três coisas: 1) que todos os homens, exceto Jesus, são depravados e ímpios; 2) todos os atos, pensamentos, vontades, desejos, escolhas e emoções de todos os homens são completamente ímpios aos olhos de Deus e 3) que todos os homens são ímpios em sua totalidade (atos, pensamentos, vontades, desejos, escolhas e emoções).
A doutrina da depravação total indica, segundo Berkhof, que “a corrupção inerente abrange todas as partes da natureza do homem, todas as faculdades e poderes da alma e do corpo” e que “absolutamente não há no pecador bem espiritual algum, isto é, bem com relação a Deus, mas somente perversão”. Não obstante, essa doutrina não implica “que todo homem é tão completamente depravado como poderia chegar a ser”, “que o pecado não tem nenhum conhecimento inato de Deus, nem tampouco tem uma consciência que discerne entre o bem e o mal”, “que o homem pecador raramente admira o caráter e os atos virtuosos dos outros, ou que é incapaz de afetos e atos desinteressados em suas relações com os seus semelhantes” e nem “que todos os homens não regenerados, em virtude da sua pecaminosidade inerente, se entregarão a todas as formas de pecado”.[4]
Em seu comentário sobre Romanos 3.13-17, o clérigo anglicano John Stott corroborou com a ideia de Berkhof ao mostrar que, a doutrina bíblica da depravação total “nunca quis dizer que o ser humano é o mais depravado possível. Tal noção e evidentemente absurda e falsa, e basta olharmos ao nosso redor, no nosso dia-a-dia para contradizê-la”, visto que, “a ‘totalidade’ da nossa corrupção tem a ver com a sua extensão (pois ela estraga e distorce todas as partes da nossa natureza humana), ao seu nível de ação (pois corrompe em absoluto cada parte de nosso ser).” Ele cita J. I. Packer, “por um lado ‘ninguém e tão mau quanto poderia ser’, enquanto que, por outro, ‘nenhum de nossos atos é tão bom quanto deveria ser’”.[5]

Depravação Total no Arminianismo
No decorrer do comentário supracitado de Stott, ele diz que, “só tem coragem de contestar [a doutrina da depravação total] quem tem sobre ela uma concepção errônea.” Ele tem razão. Os arminianos não discordam dessa doutrina como veremos a seguir. Mas, infelizmente, não sabemos se por preconceitos,[6] falta de informação[7] ou uma crença cegamente sofismática,[8] alguns teólogos calvinistas acham que o arminianismo ensina uma depravação parcial.[9]
Olson comenta que, “ao contrário da ideia popular sobre o Arminianismo (especialmente entre os calvinistas), nem Armínio nem os remonstrantes negaram a depravação total; eles a afirmaram”.[10] Sendo assim, penso que seja mais interessante observarmos declarações de teólogos arminianos a esse respeito. Vejamos:
Armínio disse:

“Neste estado [caído], o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem não está apenas ferido, enfermo, inclinado, e enfraquecido; mas ele está também preso, destruído, e perdido. E os seus poderes não só estão debilitados e inúteis a menos que seja assistido pela graça, mas não tem poder algum exceto quando é animado pela graça divina.”[11]
(...)

Leia mais em: COUTO, Vinicius. Introdução à Teologia Armínio-Wesleyana. Reflexão, 2014.


Notas


[1] SPROUL, R. C. Boa Pergunta! 1999, Cultura Cristã, p.98.
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2012, Cultura Cristã, p. 209.
[3] HANKO, Ronald. Doctrine According to Godliness. 2004, Reformed Free Publishing Association, pp. 113,114.
[4] BERKHOF, Louis. Op. Cit., p. 229.
[5] STOTT, John. A Mensagem de Romanos. 2000, ABU Editora.
[6] Não o preconceito discriminatório, mas com ideias preconcebidas.
[7] A maioria desses críticos desconhece o arminianismo clássico, tendo portanto, um entendimento preconcebido e consequentemente superficial do assunto. Suas citações não são baseadas em Armínio, nos remonstrantes ou em Wesley. Olson comenta a esse respeito dizendo que, “Algumas acusações dos calvinistas contra a teologia arminiana demonstram quase uma completa falta de conhecimento ou entendimento da literatura arminiana clássica.”. OLSON, Roger. Arminianismo: mitos e realidades. 2013, Reflexão, p. 177.
[8] Optei em chamar dessa forma porque alguns calvinistas simplesmente debocham do arminianismo e dos arminianos, demonstrando carência do fruto do Espírito Santo. Até mesmo Solano Portela reconhece que, há no meio calvinista uma arrogância que os leva a atitudes pecaminosas como a “falta de amor no trato” com os nossos irmãos e a “falta de discernimento do que é importante” ou prioritário em nossa fé cristã. Conferir essa reflexão em PORTELA, Solano. O Pecado da Intolerância Fraternal. In: _____. 5 Pecados que Ameaçam os Calvinistas. 1997, PES, p. 7.
[9] Ver, por exemplo, Leandro Lima em LIMA, Leandro Antônio de. Calvino Ensinou a Expiação Limitada? Fides Refomata IX, n° 1 (2004), p. 79. Também conferir o equívoco de Driscoll e Breshears em dizer que a visão arminiana crê que “Nascemos pecadores, mas culpados por nossos pecados, não pelos de Adão” em DRISCOLL, Mark; BRESHEARS, Gerry. Doctrine: What Christians Should Believe. 2010, Crossway, p. 267.
[10] OLSON, Roger. Op. Cit., p. 42.
[11] NICHOLS, James (Org.). The Writings of James Arminius. Volume II, 1956, Baker, p. 252.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Conhecendo o Arminianismo (parte 2) – Expiação ilimitada

Vimos no artigo anterior, uma exposição a respeito da doutrina da eleição. Nela, pudemos constatar que, as posições arminiana e calvinista, diferem-se drasticamente nos conceitos dos decretos de Deus e da predestinação. Para os calvinistas, Deus elegeu aqueles que serão salvos, antes da criação (supralapsarianismo) ou depois da queda do homem (infralapsarianismo). Os arminianos, entretanto, creem numa eleição corporativa, isto é, Deus escolheu e predestinou a Igreja e não os indivíduos. Trata-se de uma eleição com base em Sua presciência, ao passo que, para os calvinistas, com base em Sua Soberania.
A discussão (não no sentido pejorativo da palavra), agora é outra: por quem Jesus morreu? Teria o nosso Redentor morrido apenas por aqueles que Ele escolheu desde a eternidade? Ou teria Cristo morrido por toda a humanidade, dando assim, a oportunidade de salvação a todo aquele que crer? Se Ele morreu por toda a humanidade, quais seriam os efeitos dessa obra? Todos seriam salvos ou há condições? Nosso objetivo é analisar calmamente, embora não exaustivamente, a doutrina da expiação, de modo que essas perguntas e outras que surgirem no decorrer das análises, sejam respondidas à luz das Escrituras.

Artigo II – Remonstrância
“Que, em concordância com isso, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos e cada um dos homens, de modo que obteve para todos, por sua morte na cruz, reconciliação e remissão dos pecados; contudo, de tal modo que ninguém é participante desta remissão senão os crentes.”

O que é expiação
Antes de mais nada, é interessante definirmos “expiação”. Erickson definiu-a como sendo um “aspecto da obra de Cristo, e particularmente sua morte, que torna possível a restauração da comunhão entre indivíduos que creem em Deus”, além de se referir ao “cancelamento do pecado”.[1]
Rigsby diz que, a palavra expiar e seus derivados vêm de kipper (hb.), cujo significado é cobrir ou limpar. Já nos textos neotestamentários, a palavra “expiação” praticamente não aparece nas versões em português, senão em algumas versões católicas, na ARC, na ACF e na Bíblia Literal do Texto Tradicional Anotada de 2009.[2] Na maioria das vezes, as palavras gregas são derivações de hilaskomai e normalmente elas são traduzidas por “sacrifício”, “propiciação”, “propiciatório” e “reconciliação”.[3] Pecota acrescenta, ainda, que o grupo de palavras – tanto hebraicas, quanto gregas – para expiação, possui o sentido de “aplacar”, “pacificar”, “conciliar” ou “encobrir com um preço”, a fim de remover o pecado ou a ofensa da presença de alguém.[4]
O teólogo metodista do século XIX, Richard Watson, definiu expiação como sendo a “satisfação oferecida à justiça divina por meio da morte de Cristo pela humanidade, em virtude do qual todos os verdadeiros penitentes que creem em Cristo são pessoalmente reconciliados com Deus, livrados de toda pena dos seus pecados e feitos merecedores da vida eterna”.[5]
Falando sobre a universalidade do sacrifício de Cristo, Thomas Summers, outro teólogo metodista do final do século XIX, disse que expiação “é aquela satisfação feita para com Deus pelos pecados de toda humanidade, quer seja pelo pecado original ou pelos pecados atuais, pela mediação de Cristo e, especialmente pela Sua paixão e morte, de maneira que o perdão é gratuito a todos”.[6]
Arminianos e Calvinistas concordam com a ideia da depravação total e que, portanto, éramos por natureza filhos da ira (Ef 2.3), não havendo um justo sequer (Rm 3.10,11).[7] Sendo assim, somente o sacrifício de Cristo poderia abrandar ou aplacar a ira de Deus, reconciliando o Criador com a criatura.  Desta forma, podemos concluir, como afirma Rigsby, que “a ideia que está por trás da palavra expiar é reconciliar”, pois “sem uma ação expiatória, a raça humana está separada de Deus”.[8] Pelo menos nisso gozamos de unanimidade! A questão divergente entre os sistemas monergista e sinergista, no tocante à expiação, está na abrangência desta.
Para os calvinistas, ou melhor dizendo, para os calvinistas de cinco pontos,[9] a expiação é de alcance limitado, isto é, somente para os que foram predestinados para a salvação. Para os arminianos, é de caráter ilimitado, ou seja, Jesus morreu por toda a humanidade. É bom que entendamos o que se expressa em cada teologia no tocante a tal abrangência. Vejamos a seguir.

Expiação Limitada na Tradição Monergista[10]
A posição calvinista sobre a expiação limitada está delineada na Confissão de fé de Westminster:
“O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente à justiça do Pai e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus.”[11]
E no Catecismo de Heidelberg:
“Por que Cristo devia sofrer a morte? Porque a justiça e a verdade de Deus exigiam a morte do Filho de Deus; não houve outro meio de pagar nossos pecados.”[12]
Podemos citar, ainda, o Cânone de Dort, o qual descreve em seu segundo capítulo, nove artigos sobre a “morte de Cristo e a redenção humana através dela”. O primeiro artigo mostra que Deus não é apenas misericordioso, mas também “supremamente justo”, sendo que sua justiça requer “que os pecados que cometemos contra sua infinita majestade sejam punidos com punições tanto temporais quanto eternas”. Não há possibilidade de escapar do juízo de Deus a menos que lhe seja dada uma satisfação (expiação). Sendo assim, o segundo artigo mostra que, essa satisfação só é dada através de Cristo.
“A morte do Filho de Deus”, diz o terceiro artigo, “é sacrifício único e inteiramente completo, e satisfação pelos pecados; é de valor e merecimento infinitos, mais que suficiente para reconciliar os pecados de todo o mundo.” Embora pareça pender para a expiação ilimitada, o quarto artigo continua o raciocínio do valor do sacrifício de Cristo, como sendo infinito, em virtude da natureza de quem era sacrificado: o Cristo unigênito de Deus – de mesma natureza e essência eterna e infinita com o Pai e o Espírito Santo – e verdadeira e perfeitamente homem, o qual sem pecado, morreu por nossos pecados.
O quinto artigo resvala a eleição condicional, quando diz que, “é promessa do evangelho que todo aquele que crer no Cristo crucificado não perecerá, mas terá a vida eterna. Esta promessa, juntamente com o mandamento de arrepender-se e crer, deve ser anunciada e declarada sem diferenciação ou discriminação a todas as nações e povos, a quem Deus em seu bom propósito enviar o evangelho”.
É, porém, a partir do sexto artigo que vemos mais claramente as ideias predestinistas. É tratado aqui do problema da responsabilidade do homem. Verdadeiramente, o calvinismo não nega este fato, porém, o trata de uma forma maquiada, pois o próprio artigo propõe que o não arrependimento dos descrentes não se trata de insuficiência ou deficiência do sacrifício de Cristo, mas da própria falta dos ímpios,[13] pois, conforme trata o sétimo artigo, somente eleitos desde a eternidade é que recebem o dom da fé. Ora, se Deus decretou desde a eternidade a reprovação daqueles, não seria a responsabilidade divina ao invés de humana? Não foi Deus quem escolheu a quem daria a fé e a quem não daria?
Neste ponto consigo compreender o questionamento de John Wesley: “qual seria o pronunciamento da humanidade (...) a respeito daquele que, sendo capaz de livrar milhões da morte apenas com um sopro de sua boca, se recusasse a salvar mais do que um dentre cem e dissesse: ‘Eu não faço porque não o quero’? Como exaltarmos a misericórdia de Deus se lhe atribuímos tal procedimento?”.[14]
O oitavo artigo propõe explicar a eficácia do sacrifício de Cristo:
“Porque este foi o plano soberano e o mui gracioso desejo e intenção de Deus o Pai: que a eficácia vivificante e salvífica da preciosa morte de seu Filho operasse em todos os escolhidos, de modo que pudesse conceder-lhes fé justificadora e por meio dela os guiasse infalivelmente à salvação. Em outras palavras, foi vontade de Deus que Cristo através do sangue na cruz (pelo qual ele confirmou a nova aliança) deveria efetivamente redimir de todos os povos, tribos, nações, e línguas todos aqueles, e somente aqueles, que foram escolhidos desde a eternidade para salvação e que foram dados a ele pelo Pai...”
O capítulo termina com a consumação do plano de Deus, que não pôde, não pode e nunca poderá ser frustrado. O plano, segundo o último artigo, provém “do eterno amor de Deus por seus escolhidos”, mas é difícil enxergar tal amor com as lentes arminianas, pois o critério dessa eleição vai de encontro com o caráter amoroso de Deus. Se admitirmos essa eleição incondicional, teremos de admiti-la como uma acepção soberana de Deus das pessoas.

Compreendendo a Expiação Limitada
Sproul disse que “há muita confusão sobre o que a doutrina da expiação limitada realmente ensina”.[15] Talvez, a pergunta correta para compreendermos tal doutrina, não seja “por quem Jesus morreu?”, mas “por quê?”. Berkhof comenta que, a expiação foi destinada a cumprir três propósitos, a saber: “a afetar a relação de Deus com o pecador, o estado e a condição de Cristo como o Autor Mediatário da salvação, e o estado e a condição do pecador”.[16]
Com referência a Deus, não no sentido de sua natureza ou atributos, visto que é imutável, mas na relação de Deus com as criaturas. Sua ira foi aplacada. Sobre isso, Berkhof diz que “a expiação não deve ser entendida como a causa motora do amor de Deus, pois já foi uma expressão do seu amor”. Com respeito a Cristo, a expiação assegurou “multiforme recompensa”. Foi “constituído Espírito vivificante, fonte inexaurível de todas as bênçãos da salvação para os pecadores”. E, finalmente, no tocante aos homens, a expiação não apenas tornou a salvação possível, mas garantida “àqueles para os quais estava destinada”.
Todavia, preciso discordar dele, pois a sequencia dos decretos de Deus, segundo a ótica calvinista, faz do plano da redenção o cumprimento de um elo predeterminado de uma corrente de eventos. Não consigo visualizar um plano de amor, mas um ato mecanicista e deliberadamente soberano. Para que essa “lógica irresistível” – como diz Sproul, fazendo alusão a Lutero – faça sentido, é preciso que aceitemos que Deus tenha premeditado (predestinação) a queda de Adão, ao invés de tê-la previsto (presciência), o que inevitavelmente tornaria Deus o autor do mal.

(...)

Leia mais em: COUTO, Vinicius. Introdução à Teologia Armínio-Wesleyana. Reflexão, 2014.

Notas


[1] ERICKSON, Millard. Dicionário Popular de Teologia. 2011, Mundo Cristão, p. 77.
[2] Na versão da CNBB encontramos em Rm 3.25; Hb 2.17; 9.5; 13.11 e em 1 Jo 2.2; 4.10; Na ARC (Almeida Revista e Corrigida), bem como na ACF (Almeida Corrigida Fiel), encontramos apenas em Hb 2.17; Finalmente, na versão da Bíblia literal do Texto Tradicional Anotada de 2009, encontramos somente em Rm 5.11.
[3] RIGSBY, Richard. A Expiação. In: DOCKERY, David S.. Manual Bíblico Vida Nova. 2010, Vida Nova, p. 823.
[4] PECOTA, Daniel. B.. A Obra Salvífica de Cristo. In: Teologia Sistemática. HORTON, Stanley M. (org.). 1996, CPAD, pp. 352,353.
[5] WATSON, Richard. Atonement. In: _____. A Biblical and Theological Dictionary. 1832, John Mason, p. 116.
[6] SUMMERS, Thomas Osmond. A Complete Body of Wesleyan Arminian Divinity. 1888, Publishing House of the Methodist Episcopal Church, p. 258,259.
[7] A doutrina da Depravação Total ainda será abordada no nosso terceiro artigo. Os conceitos são idênticos, mas alguns calvinistas acusam injustamente os arminianos de crerem numa Depravação Parcial, o que está mais para o semi-pelagianismo, conforme teremos a oportunidade de abordar.
[8] RISGBY, Richard. Op. Cit., p 823.
[9] A abrangência da expiação divide a opinião nos círculos calvinistas. Alguns deles não aceitam a limitação do derramamento do Sangue de Cristo e negam o ponto da expiação limitada. Eles são chamados de calvinistas de quatro pontos e apelidados por alguns calvinistas de “calvinistas de Natal”, em função do trocadilho “Noel” (no L), do inglês, que quer dizer “sem o L” (o L do Limited Atonement – Expiação Limitada). Podemos citar como calvinistas de 4 pontos, Richard Baxter, Moyse Amyraut, John Davenant, Norman Geisler, Charles C. Ryrie e Lewis Sperry Chafer, dentre outros.
[10] Preferi utilizar a expressão “tradição monergista” porque acho injusto chamar o calvinismo de tradição reformada. Os arminianos creem nos mesmos princípios da Reforma Protestante (os 5 solas) e integram, sem sombra de dúvidas, a tradição reformada.
[11] Confissão de Fé de Westminster. 2011, Cultura Cristã, cap. VIII, parágrafo V.
[12] Catecismo de Heidelberg. Pergunta e Resposta 40.
[13] Vale a pena ressaltar que, não queremos com isso, criar uma teologia centrada no homem e nem mesmo coloca-lo como merecedor de alguma coisa. A não aceitação do Evangelho por parte dos ímpios é uma prova empírica de que, a graça pode ser resistida e, por isso mesmo é que Deus mantém a punição eterna a estes.
[14] BURTNER, Robert W.; CHILES, Robert. E. (org.). Coletânea da Teologia de João Wesley. 1995, Colégio Episcopal, p. 47.
[15] SPROUL, R. C.. The Truth of the Cross. 2007, Reformation Trust Publishing, p. 142.
[16] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2012, Cultura Cristã, p. 361.