segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Teologia liberal: cachorro morto ou leão adormecido?

Há alguns meses, enquanto entregava alguns convites para que certos pastores da cidade em que resido participassem de um seminário de teologia, um deles disse de forma sarcástica o seguinte: “Precisamos realmente de um curso de teologia por aqui, pois o liberalismo teológico é uma grande ameaça nos nossos dias”. Acenei a cabeça com um gesto positivo, mas devo admitir que pensávamos em liberalismos diferentes. Enquanto aquele jovem pastor se referia a costumes e trajes de vestimentas, eu refletia sobre a teologia liberal.
Muitos pensam que tal teologia não fornece nenhum perigo nos dias de hoje e adotam um comportamento ufanista em relação a ela. Outros, mais desavisados, agem indiferentes a seus meandros corrompidos, não dando a mínima para suas confusões. E há aqueles que sabem de seus problemas e que não desejam ficar de braços cruzados vendo o circo pegando fogo; Querem fazer algo para minimizar os estragos.
Mas, afinal, depois de sabermos da existência dessa malévola corrente teológica, vêm à mente algumas perguntas: o que é essa teologia? De onde vem? O que ensina? Quais são seus riscos e perigos? Como devemos agir? Pretendemos, nesse artigo, comentar de forma panorâmica, embora não superficial, sobre os desvios dessa pseudo-teologia, respondendo às perguntas enumeradas na problematização e viabilizando contramedidas práticas.

De onde vem a teologia liberal?
Alguns estudiosos pontuam o início da teologia liberal no final do século XVIII, quando o alemão Friedrich Scheleiermarcher passou a negar a autoridade, bem como a historicidade dos milagres de Jesus. Além de questionar tais aspectos, passou a defender uma posição soteriológica um tanto distante da ortodoxia cristã: bastava a pessoa “sentir” comunhão com Deus e estaria salva, mesmo não crendo nos Evangelhos. Doravante, Cristo era, oficialmente, um mero exemplo de ser humano para os discípulos e simpatizantes da veia liberal e não mais o Redentor da humanidade.
É verdade que tal pensamento inauguraria o que se conhece atualmente por “teologia liberal”, mas não é exatamente no final do século XVIII que ela se origina. Podemos retornar quase dois séculos à Europa racionalista, representada principalmente pela pessoa de René Descartes. É nessa fase que o liberalismo teria seu start up. O racionalismo dava ênfase principalmente a dois pontos: 1) liberdade e dignidade, e 2) investigação científica.
A obra de Emanuel Kant, Crítica da Razão Pura, apresentou argumentos com a finalidade de desconstruir bases racionais de doutrinas centrais do cristianismo. Ele chegou a convencer muita gente de que os argumentos ontológico, cosmológico e teleológico em favor da existência de Deus não eram válidos. Tais idéias levaram muitos teólogos a repensar suas idéias. Schleiermacher foi um desses teólogos que “rejeitaram a teologia natural especulativa, procurando alicerçar as crenças cristãs sobre a consciência universal e subjetiva que o homem tem de Deus.”[1]
Além de Descartes, podemos citar como integrantes do estágio inicial do liberalismo, homens como Baruch Spinoza (judeu holandês), Gottfried Wilhelm Leibniz e Gotthold Ephraim Lessing (alemães), John Locke (inglês), os escritores e filósofos ingleses conhecidos como Platonistas de Cambridge e também os deístas. Alguns anos mais a frente, numa etapa que a sociologia denomina como modernismo, é que surgem os primeiros liberais, representados pelo já citado Schleiermacher, Albret Ritschl, H.E.G. Paulus, D.F. Strauss, Adolf Von Harnack e Ernst Troeschl.
O Rev. Augustus Nicodemus explica um pouco sobre a origem do liberalismo:

Após a Reforma, durante os séculos dezessete e dezoito, a Igreja protestante foi largamente influenciada por idéias originadas do Iluminismo. O racionalismo desejava submeter todas as coisas ao crivo da análise racional. Lentamente a razão humana começou a triunfar sobre a fé. O filósofo L. Feuerbach tentou transformar a teologia em antropologia, dizendo que tudo que se diz sobre Deus, na verdade, é dito sobre o homem. Ele influenciou grandemente K. Marx, S. Freud, R. Bultmann e F. Schleiermacher. Esse último desvinculou a fé cristã da história e da teologia, reduzindo a experiência religiosa ao sentimento de dependência de Deus. Somente depois ficaria evidente que era impossível construir uma teologia em cima de um terreno tão subjetivo, mas na época, e por mais de um século, Schleiermacher foi seguido por muitos e sua influência continua até hoje.[2]

Além desses personagens, um evento histórico mudou a cosmovisão desses homens que “pensavam fora da caixa.” Trata-se da Alta Crítica, um método que parte do pressuposto de que a Bíblia não é inerrante, negando a inspiração divina de seus livros e tratando-a como meros registros humanos falíveis e contraditórios da fé de Israel e dos primeiros cristãos.
A Alta Crítica, também chamada hoje de Crítica Textual, passou a defender que a Bíblia contém erros e que foi escrita muito tempo depois de sua composição, alegando que havia acréscimos e interpolações posteriores. Embora ouvimos que isso não diminui a autoridade das Escrituras, tal afirmação é completamente inconsistente, pois tais erros e modificações deixariam a Bíblia sem nenhuma confiabilidade.
Crer numa Bíblia errante desestabiliza e ridiculariza a fé cristã, pois rebaixa a Bíblia a um livro comum, comparável aos demais escritos religiosos, bem como anula ou reduz a doutrina da inspiração, além de jogar por terra sua confiabilidade. Que garantia teríamos de que Jesus viveu sem pecado? Ou que Ele ressuscitou? Que Ele é o único caminho? Qual é o sentido de viver em santidade? Por isso, concordo com Horton quando comenta que, “abrir mão da doutrina da inerrância é o primei­ro passo para se abrir mão da autoridade da Bíblia.”[3]
O teólogo liberal alemão J. Solomon Semler, seguindo a idéia não inerrantista da Bíblia, propôs uma distinção entre Palavra de Deus e Escrituras. É daí que surgiu a famosa frase: “A Bíblia não é a Palavra de Deus, mas contém a Palavra de Deus”. Tal frase mais uma vez nega a autoridade das Escrituras, bem como a inspiração e a inerrância e cria um problema ainda maior do que os liberais criaram, pois se a Bíblia é parcialmente inspirada, como definir qual parte é e qual não é? Qual é o critério ou parâmetro para tal definição?
Quem teria autoridade para determinar o que é inspirado e o que não é? Isso incorre num relativismo perigoso e descompensado. O que é pecado na Bíblia, pode não mais ser pecado numa interpretação liberal. Na ânsia de separar o que seria inspirado do que não seria, os liberais adotam o método histórico-crítico,[4] como se estivessem fazendo uma exegese “científica,” a fim de descobrir a Palavra de Deus dentro do cânon da Bíblia.

O que é e quais são suas principais ameaças?
O termo “liberal” aparece em outros ramos além da teologia, a saber, na política e na sociologia. De uma forma simplista, a expressão “liberal” reivindica para si a ideia de que alguém tem a mente mais aberta para algo do que a maioria possui; Outros entendem que ser “liberal” é ser liberto da coerção e de controles externos de determinada cosmologia.
Mas, para fins teológicos, a definição mais precisa de liberalismo, é: um sistema que tem “comprometimento com uma série de proposições religiosas que deram origem, na realidade, a uma nova religião, que reteve traços da terminologia ortodoxa tradicional, mas que redefiniu radicalmente esses termos, dando a eles um significado especial”.[5]
A redefinição desses termos pode ser verificada na visão que eles têm da Bíblia. Esta deixa de ser uma Obra inspirada pelo próprio Deus (isenta de erros) e passa a ser considerado um mero documento humano, à semelhança de outros livros antigos, tais como os Vedas, o Alcorão e o Mahabharata. Além de rebaixar a autoridade das Escrituras e isolar um dos princípios da Reforma, o sola scriptura, a teologia liberal nega abertamente os milagres narrados na Bíblia, bem como o nascimento virginal de Cristo e sua ressurreição. O pecado se torna algo socialista e deve ser vencido pela boa vontade e/ou pela pré-disposição do homem em fazer o bem.
A negação ou deturpação de tais doutrinas, essenciais do cristianismo, diga-se de passagem, são as maiores ameaças para o cristianismo atual. Muitos seminários e faculdades estão simplesmente ignorando a posição teológica de alguns professores e contratando liberais para lecionarem em suas instituições. Além de a teologia abordada nessas instituições não ser bíblica, elas não estão preocupadas em preparar os vocacionados, atuam com relativização do pecado e das doutrinas rudimentares da fé cristã, reconhecem todas as religiões como válidas e propagam pensamentos liberais e neo-ortodoxos. Tais conceitos também são vistos nas classes dos cursos de Ciências da religião.
Outro ponto problemático da teologia liberal é a visão pragmática acerca da missão da Igreja, reinterpretando-a como engajamento social a despeito da proclamação do Evangelho para a salvação de almas. A ideia é transferir a práxis missionária para obras de caridade e de responsabilidade social. Troca-se salvação por compaixão.
Nicodemus enumera algumas das principais idéias do liberalismo:[6]
1.      O sobrenatural não invade a história. Milagres não acontecem como fatos no tempo e no espaço, mas são explicações ou projeções das pessoas na tentativa de descrever suas experiências ou entender Deus.
2.      A história se desenrola numa relação natural de causas e efeitos.
3.      Milagres como o nascimento virginal de Cristo, os milagres que o próprio Cristo realizou, sua ressurreição física dentre os mortos, os milagres do Antigo e Novo Testamentos nunca aconteceram na história. No máximo, na heilsgeschichte(história santa, ou história salvífica), diferente do mundo da história bruta, real, factível.
4.      Temas como criação, Adão, queda, milagres, ressurreição, entre outros, pertencem à história salvífica e não à história real e bruta. Adão e Eva não foram pessoas reais.
5.      Não interessa o que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas, sim, a declaração dos discípulos de Jesus que diz que Jesus ressuscitou.
6.      Os relatos bíblicos dos milagres são invenções piedosas do povo judeu e dos primeiros cristãos, mitos e lendas oriundos de uma época pré-científica, quando ainda não havia explicação racional e lógica para o sobrenatural.
7.      A Escritura contém erros e contradições, lado a lado com aquelas palavras que provêm de Deus. Nossa tarefa é tentar separar as duas coisas.
8.      Interpretar a Bíblia historicamente significa reconhecer que ela contém contradições. Qualquer abordagem hermenêutica deixa de ser histórica se não aceitar essas contradições.
9.      A Igreja Cristã se perdeu na interpretação da Bíblia através dos séculos e somente com o advento do Iluminismo, do racionalismo e das filosofias resultantes é que se começou a analisar criticamente a Bíblia e a teologia cristã, expurgando-as dos alegados mitos, fábulas, lendas, acréscimos, como, por exemplo, os mitos da criação e do dilúvio e de personagens inventados como Adão e Moisés, etc.
10.  O sentimento religioso é algo universal, isto é, cada ser humano é capaz de experimentá-lo. É esse sentimento que dá validade às experiências religiosas e que torna o ecumenismo possível

Como lutar contra ela?
Como se pode perceber, a indiferença para com o liberalismo teológico pode ser perigosa e já estamos vendo resultados pelo mundo a fora. Muitas denominações históricas já entraram no processo de aceitar a união de pessoas do mesmo sexo, além de estarem ordenando homossexuais e transexuais para o ministério. O ideário da teologia liberal afeta diretamente o futuro de nossas igrejas. Sendo assim, como podemos lutar contra ela?
1) Preterindo, evitando e se possível não aderindo a escolas que professem ou sejam indiferentes com a propagação da teologia liberal: Infelizmente, a maioria dos cursos de graduação em teologia reconhecidos pelo MEC são ministrados com conteúdos e alguns professores liberais. Temo que nas próximas décadas, o Brasil seja invadido por conceitos heterodoxos do liberalismo como numa avalanche. A razão para esse temor é a extinção das integralizações de crédito. Isso forçará os estudantes de teologia que desejam ter o reconhecimento do curso pelo Ministério da Educação a ingressarem nessas instituições que apóiam de modo direto ou indireto o liberalismo.
Tenho certeza de que você, amigo leitor, jamais iria querer almoçar num restaurante em que soubesse que a comida ali é preparada com alimentos estragados. Tal comida, além de ter um gosto horrível, certamente não faria bem para seu estômago e, por conseguinte, à sua saúde. Lembro-me de uma moça que congregava comigo em certa comunidade e que foi trabalhar como cozinheira numa lanchonete. Ele contou que quando os clientes deixavam algum bolinho ou porção sobrando na mesa, os garçons eram orientados a recolher a sobra e guardar no forno. Quando um novo cliente fizesse o mesmo pedido, então eles deveriam requentar aquelas porções e enviar para os clientes. Bem, nunca tive coragem de ir comer naquele lugar depois que ela me contou aquilo.
2) Preparando-se de forma notória para com o conhecimento correto das doutrinas centrais da fé cristã e resgatando o fundamentalismo teológico: heterodoxia não se mistura com ortodoxia. São como água e óleo. Por isso, aquele que visa conhecer as doutrinas centrais da fé cristã de forma bíblica, preocupado com a sanidade doutrinária e em consonância com a ortodoxia, estará bem equipado com o Evangelho puro e simples. A maioria das heresias são facilmente derrubadas pelo correto entendimento da teologia sistemática.
A expressão “fundamentalismo,” na atualidade, ganhou uma conotação um tanto quanto pejorativa, vindo a significar algo como uma fidelidade absoluta à interpretação literalista da Bíblia e/ou uma atitude de rigidez e intransigência sobre princípios e regras. Na visão popular é como se fosse alguém “fechado” e que não dialoga com outras ideias, mas que só pensa de forma unívoca. Pode significar, ainda, qualquer tipo de conservadorismo. Nesse sentido, alguém que é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, pode ser taxado de fundamentalista.
Dreher até comenta que há um conceito realmente inflacionado.[7] Mas, apesar da conotação moderna de “fundamentalismo”, seu surgimento original não tem a ver com isso e sim com uma reação ocorrida no início do século passado para com os conceitos abertos e heterodoxos da teologia liberal. Por isso, se alguém taxar você de “fundamentalista” não se chateie, pois como Dreher colocou: “sempre os outros que são fundamentalistas” e o que esses grupos esquecem é que eles também adotam um certo “fundamentalismo”, quando pensam que os “fechados” deveriam ser “abertos” como eles.
Entretanto, o fundamentalismo que defendemos ser resgatado, não é o que ganhou conceito contemporâneo, de pessoas que parecem colocar uma “viseira” de cavalo e não enxergam mais nada na sua frente. O fundamentalismo ao qual nos referimos é aquele teológico, que procura manter os rudimentos da ortodoxia cristã. Aquele que nasceu do “movimento apologético de defesa da fé, porque entendia que a tarefa da Igreja cristã era defender a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” Nicodemus explica que, “Nesse aspecto, é positiva a disposição de se lutar em favor da fé bíblica, identificando inimigos potenciais do cristianismo, como o liberalismo teológico, o humanismo, o evolucionismo e o “evangelicalismo”, que tem, gradualmente, abandonado a doutrina da infalibilidade da Escritura e adotado o ecumenismo e o evolucionismo teísta.”[8] E assim partimos para a terceira atitude de como lidar com o liberalismo:
3) Batalhando pela fé que foi dada aos santos: defender a fé cristã, isto é, fazer apologia à sã doutrina, é uma ordenança bíblica (Jd 3). Contudo, é preciso que antes de alguém se aventurar a fazer tal defesa, esteja preparado para tal. Ademais, tal defesa deve ser feita com amor e nuca com soberba (1 Pe 3.15).
Como exemplo de alguém que batalhou por essa fé, podemos nos reportar à biografia do famoso teólogo reformado, John Gresham Machen. Ele foi estudar na Alemanha no início do século XX, passando um semestre pela Universidade de Marburg e mais outro na Universidade de Göttingen, ficando completamente exposto ao liberalismo. Tal encontro deixou Machen bastante confuso, pois se deparou com ensinos bastante controversos.
Seus professores propagavam que a essência da religião está no íntimo de cada pessoa. Diziam que a Bíblia podia ser refutada pela história, que não servia de alicerce para a fé cristã e que é completamente ineficaz para transformar o homem. Tais pontos vão de encontro com verdades essenciais do cristianismo. De que adianta a exposição das Escrituras, se não há fé para pregá-la?
A experiência na Alemanha levou Machen a questionar sua vida de piedade e devoção a Cristo e levou-o também a um desafio intelectual. Ele passou uma crise intensa no tocante à sua identidade cristã e só oito anos depois de regressar da Alemanha é que ele recobrou sua fé.[9]
Depois de sua recuperação, Machen mostrava sua preocupação. De acordo com ele, o liberalismo não é um assunto exclusivamente acadêmico, “Pelo contrário”, asseverava, “seu ataque aos fundamentos da fé cristã está sendo conduzido vigorosamente através de ‘lições’ de Escola Dominical, do púlpito e da imprensa religiosa.”[10]
Machen posicionou-se contundentemente contra a teologia liberal e sofreu várias perseguições por conta de seu posicionamento. Como atitude remonstrante, ele se ajuntou a outros professores e participou da fundação do Seminário Teológico de Westminster, além da coparticipação na criação da Igreja Presbiteriana Ortodoxa.[11]

Considerações finais
A teologia liberal por certo não está morta e não deve ser encarada de forma ufanista como se fosse um cachorro morto. Ela tem produzido muitos estragos, embora não todos quantos ainda possa produzir. Ela entrou em declínio desde a década de 20 do século passado, arrefecendo-se, mas não estando morta por completa. Vemos seus resquícios nas teologias sociais, que empunham a espada do Marxismo e através de conceitos neo-ortodoxos.[12]
A teologia sadia não teme a ciência (ou as ciências) e tampouco a filosofia. A missão precípua das três manifestações racionais é a busca pela verdade. Entretanto, a verdade para a legítima teologia não está nos sistemas teológicos, mas, na própria pessoa de Cristo (Jo 14.6) e em Sua Palavra (Jo 17.17), fundamentos negados pela teologia liberal. Sendo assim, devemos encará-la como um leão adormecido e trabalhar para que fique enjaulado, limitado e sem poder de machucar ninguém.


Notas



[1] CHAMPLIN, Noman; BENTES, João. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, 1991, p. 802.
[2] NICODEMUS, Augustus. O Liberalismo Teológico Morreu? Disponível em: tempora-mores.blogspot.com.br/2011/09/o-liberalismo-teologico-morreu.html
[3] HORTON, Stanley (Org.). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 109.
[4] Em breve estarei postando um artigo sobre o método histórico-gramatical, com a finalidade de mostrar seus benefícios para uma interpretação ortodoxa.
[5] CONSTANZA, José Roberto da Silva. As Raízes Históricas do Liberalismo Teológico. Fides Reformata X, n° 1, 2005, p. 80.
[6] NICODEMUS, Op. Cit.
[7] DREHER, Martim. Fundamentalismo. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 82.
[8] Entrevista do Dr. Augustus Nicodemus à Revista Defesa da Fé. Disponível em: http://www.icp.com.br/86entrevista.asp.
[9] SANTOS, Valdeci da Silva. John Gresham Machen contra o liberalismo: em defesa da fé cristã. Fides Reformata IX, n° 1, 2004, p. 149.
[10] MACHEN, John. Cristianismo e Liberalismo. Os Puritanos, 2001, p. 27.
[11] Para maiores informações sobre a biografia de Machen, ler o artigo de Valdeci da Silva Santos supracitado na nota 2.
[12] Na visão deste autor, a neo-ortodoxia deveria ser chamada de neo-liberalismo, pois é uma tentativa de ficar no meio da ortodoxia e do liberalismo, entretanto, com uma maior simpatia por esta. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Perspectivas Armínio-Wesleyanas da Soberania Divina


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Teologias Arminiana e Calvinista


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Macumba pega no cristão?

A crença de que crentes estão sendo atacados por trabalhos de macumba, mau olhado, despachos ou coisas assim é muito comum. Vez ou outra aparece alguém perguntando se o cristão pode “pegar” macumba.
Esse “pegar” dá a ideia de pegar uma doença, uma maldição ou algo assim. É como se o feitiço lançado fosse propagado por um canal invisível e atacasse o casamento, finanças, saúde, família, etc, assim como o vírus da gripe que entra no organismo humano através das vias respiratórias e ataca o funcionamento regular do corpo.
Milhares de brasileiros têm essa mesma dúvida e não são poucos os que se perguntam: o que é macumba? Ela funciona? O cristão pode ser alvo de macumbaria? Ela terá efeito na vida dele? O que a Bíblia tem a dizer de tudo isso? Essas perguntas rodeiam muitos cristãos e pretendemos sana-las neste artigo.

O que é macumba
A definição de macumba não é fácil de se conseguir. A ideia popular normalmente está associada a feitiços, trabalhos para atrasar a vida de alguém, despachos, mandingas e coisas do tipo. A ideia geral da sociedade é que a macumba é algo malévolo, maligno e até mesmo diabólico. Oliveira sugere que esta fama ruim possa ter sua origem na provável “associação ao adjetivo feminino de mau: ‘má’”.[1] Na visão dele, se fosse então “boacumba”, a religiosidade afro-brasileira poderia ter tomado outro rumo.
Não há um significado concreto para o termo macumba, etimologicamente falando. O wiktionary sugere que, o termo talvez venha do quimbundo (idioma banto falado na Angola), ma (o que assusta) e kumba (soar assustadoramente). Quando se fala nesse assunto, generaliza-se, portanto, todas as religiões afro-brasileiras em um único termo: macumba. A ideia geral também é que essas religiões trabalham com feitiçarias, magias, encantamentos, consulta a mortos, bruxarias, vodus e coisas assim.
A ideia não está de toda errada. Champlin explica que as religiões praticantes de magias e feitiçarias partem da ideia de “que certas pessoas têm a capacidade de manipular poderes sobrenaturais, a fim de alterar para melhor ou para pior a sorte de alguém, tanto do próprio individuo como de outras pessoas”.[2]
Certo representante do candomblé, por exemplo, publicou um livro em que traz ensinamentos sobre como prejudicar outras pessoas através de feitiços e encantamentos.[3] Alguns desses feitiços seriam: colocar uma pessoa louca, destruir, arruinar, colocar feridas, trazer separações matrimoniais, fazer perder tudo o que tem, fazer ir embora, fazer vingança e até mesmo matar.
Gaarder comenta que o candomblé não é uma religião ética, mas mágica e ritualística. Nela não há a ideia de salvação da corrupção do pecado e tampouco há espaço para negação deste mundo em prol de uma vida eterna. “No candomblé o que se busca é a interferência concreta do sobrenatural ‘neste mundo’ presente, mediante a manipulação de forças sagradas, a invocação das potências divinas e os sacrifícios oferecidos às diferentes divindades, os chamados orixás”.[4]
Embora o candomblé adote a prática de fazer o mal explicitamente, Lourenço Braga alega que a umbanda se dedica à prática do bem (magia branca), ao passo que a quimbanda se dedica à prática do mal (magia negra).[5]
O esforço de Braga cai por terra após o relato de Camargo. Segundo este, os espíritos maus, que ele chama de “quimbandeiros” são mais fortes do que os “bons” e diz que às vezes, os umbandistas têm necessidade de apelar para aqueles.[6]
O dicionário Melhoramentos define macumba como candomblé, feitiçaria e ainda como um instrumento de percussão dos negros.[7] Trindade, sacerdote umbandista, explica que uma das possibilidades para a origem da macumba talvez seja a ligação que as pessoas fizeram dos praticantes das religiões afro com o instrumento predominante de suas religiões.[8] Ou seja, como na maioria das religiões afro usava-se o instrumento de percussão “macumba” e quem os tocava eram “macumbeiros”, daí a fama popular genérica de que todas as religiões afro sejam “macumba”.
Macumba também é, popularmente associado a feitiço. Quando alguém diz “fizeram uma macumba para meu vizinho”, ele está na verdade dizendo que fizeram um trabalho de feitiçaria (macumbaria) contra aquela pessoa.

A macumba na sua forma primitiva
De acordo com Oliveira, alguns pensadores da religião acreditam que a umbanda deriva-se dos cultos hindus e egípcios, além de outros povos da antiguidade.[9] Champlin comenta que, “a magia desempenhava um papel dominante nas religiões da Babilônia, do Egito, de Roma, do hinduísmo brâmane e nas formas tântricas tanto do hinduísmo quanto do budismo”.[10]
Lourenço Braga definiu a umbanda da seguinte forma: “umbanda é magia, e fazer magia é saber jogar com as forças ocultas existentes no Universo, quer sejam elas providas de espíritos de categoria diferentes, quer sejam de vibrações provindas de planetas, em ondas diversas; quer sejam elas emanadas dos corpos: fluídico, eletrônico, gasoso, líquido e sólido; quer sejam elas provindas dos elementos: éter, fogo, ar, água e terra, por intermédio dos elementais: etéreos, salamandras, silfos, ninfas e gnomos”.[11]
Partindo do pressuposto de que a “macumba” é um sistema de crença animista, fetichista e espírita, suas formas primitivas, por assim dizer, podem ser encontradas em alguns relatos bíblicos das religiões babilônicas e egípcias.
Essas religiões atuavam com técnicas práticas, cerimoniais e combinadas entre as duas, semelhantemente à macumba moderna. Na magia prática, o individuo executava algo que foi declarado pelo feiticeiro ou sábio e realizava certos atos como banhos com ervas, entrega de oferendas e uso de poções. Na magia ritualística, havia encantamentos e agouros, algumas vezes acompanhados por ritos sacrificiais elaborados. Para esses rituais, divindades, demônios, forças cósmicas, forças da natureza, dentre outras, eram invocados como auxílios. Acreditava-se, ainda, que certas palavras revestem-se de poder, e que certas orações ou declarações atrairiam os poderes superiores.
No Egito a crença mística envolvida nos encantamentos e fórmulas mágicas era grande. Champlin comenta de um manual de instruções mágicas, intitulado “Instruções para o Rei Merikare” (datado cerca de 2200 a.C.). Segundo ele, este manual “é um bom exemplo das antigas fórmulas mágicas egípcias”.[12] As técnicas medicinais também faziam parte do sistema egípcio de crença e seus mágicos eram conhecidos como homens santos e operadores de prodígios.
Biblicamente podemos ver esses fatos como quando faraó sonhou com as sete vacas magras e as sete vacas gordas, bem como com as sete espigas boas e as sete secas, antes de ter a interpretação de seu sonho pelo patriarca José, recorreu aos magos do Egito (Gn 41.24).
Nos dias de Moisés, ele e seu irmão foram visitar o faraó a fim de que este libertasse o povo hebreu. Chegando lá, Arão lançou sua vara no chão e a mesma se transformou em serpente. Um sinal como esse poderia espantar qualquer um que não estivesse envolvido com magia, porém, para o faraó aquilo não era nenhuma novidade, tanto que ele chamou seus feiticeiros os quais reproduziram tal transformação material através de seus encantamentos (Êx 7.10,11).
Balaão ficou entusiasmado com a recompensa financeira prometida por Balaque. Enquanto se dirigia para encontrar-se com o rei de Moabe, sua jumenta lhe deu trabalho todas as vezes que se desviava do Anjo do Senhor e por isso, Balaão a espancou repetidamente. A jumenta teve a boca aberta pelo Senhor e lhe questionou as agressões, perguntando: “Que te fiz eu, para que me espancasses estas três vezes?”. Ryrie comenta que, provavelmente Balaão tenha tido envolvimento com rituais de feitiçaria, pois não se assustou nem um pouco com o fato de sua jumenta ter falado.[13]
Nas religiões assírias e babilônicas os deuses eram invocados por meio de fórmulas mágicas. Acreditava-se que através dos encantamentos, Marduque exercia seu poder com mais força do que qualquer outro deus ou deusa. Nos dias de Daniel, podemos ver Nabucodonosor, rei da Babilônia, ficando perturbado por conta de alguns sonhos. Nenhum mago, adivinhador ou encantador teve a capacidade de revelar qual era o seu sonho e tampouco seu significado. Apesar da ineficácia dos rituais desses homens e de suas entidades, Daniel disse que “há um Deus no céu, o qual revela os mistérios” e desta forma lhe contou o sonho e seus significados escatológicos (Dn 2).

A Origem da macumba
As religiões afro-brasileiras tiveram sua origem no sincretismo das religiões africanas, ameríndias e católicas. É difícil precisar a enorme variedade dessas religiões. Dentre as principais, podemos destacar o babaçuê, (jeje-nagô), batuque, candomblé, culto aos egunguns, culto de ifá, pajelança, catimbó-jurema, omolokô, xangô do nordeste, xambá, umbanda e quimbanda. Em contrapartida, é muito fácil fazer confusão com essas religiões, pois suas crenças são aparentemente parecidas, talvez aí esteja a razão pela qual chama-se genericamente todas essas religiões de macumba.
Bastos reforça essa similaridade dizendo que, “os cultos afro-brasileiros disseminados no Brasil, tomam nomes diferentes, pouco se distinguem entre si pelos ritos admitidos, pelas divindades ou categorias protetoras ou pelas finalidades a que se destinam. De maneira geral se confundem”.[14] Segundo ele, o que é candomblé na Bahia, é o mesmo que xangô em Pernambuco e Alagoas, canjerê em Minas, Pará e no Rio Grande do Sul, babaçuê no Norte, encanteria, cabula ou tambor de mina no Maranhão, cambinda, linha de mesa ou catimbó no Nordeste e a macumba do Rio de Janeiro.
De acordo com Lima, a formação da macumba brasileira se formou a partir do sincretismo do fetichismo africano, formada pelas culturas sudanesas e bantu, do fetichismo ameríndio, com suas lendas e entidades míticas, do espiritismo kardecista, com a ideia da transmigração de almas e o conceito de mediunidade e do catolicismo europeu na apresentação dos santos, bem como crendices populares.[15]
O sincretismo católico se deu em função da perseguição que os escravos sofriam durante a era Brasil Colônia em relação a suas crenças. Uma vez que a missão jesuítica era estabelecer o cristianismo romano, os escravos associaram seus orixás com os santos católicos e essa tradição perdura até hoje. Como exemplos, podemos citar a fusão de oxalá em Jesus, oiá em Santa Clara, oxum em Aparecida, oxumaré em São Bartolomeu, oxóssi em São Sebastião, obá em Santa Joana D'Arc, xangô em São Jerônimo, ogum em São Jorge, iansã em Santa Bárbara, iemanjá em senhora da Conceição, da Glória e/ou dos Navegantes e nanã em Sant’ana.
Gaarden assevera que, “as religiões afro-brasileiras formaram-se em diferentes regiões e estados do Brasil e em diferentes momentos da nossa história. Por isso, elas adotam não só diferentes formas rituais e diferentes versões mitológicas derivadas de tradições africanas diversificadas, como também adotam nome próprio diferente”.[16]
Ainda conforme Gaarden, as nomenclaturas diferenciadas regionalmente seriam o candomblé na Bahia, xangô em Pernambuco e Alagoas, tambor de mina no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul e macumba (posteriormente umbanda) no Rio de Janeiro.
A “macumba umbandista” vem da mitologia iorubá. Os iorubás compreendem a região sudoeste da Nigéria e as partes adjacentes do Benin e Togo. O tráfico de escravos na época da colonização brasileira, principalmente da região citada, é que contribuiu para a formação das religiões afro-brasileiras.
Conforme relata Almeida, “os iorubá acreditam num criador supremo, chamado Olodumare ou Olorun, que além de criar o céu e a Terra com todos os seus habitantes, criou também as divindades (orisa ou imole) e os espíritos (ébóra)”.[17] Esses seres (divindades e espíritos) são de naturezas diversas. “Alguns estão com o Criador desde o princípio, antes da criação da Terra, e são chamados de divindades primordiais. Outros são figuras históricas de reis, heróis, guerreiros, etc., que se transformaram em orixás por seus feitos. Outros representam elementos da natureza: árvores, rios, lagos.”
A crença iorubá era uma espécie de henoteísmo com elementos panteístas. Para os iorubá, Olorum era o criador e possuía atributos naturais como imortalidade (embora não haja o conceito de sempiterno), onipotência, onisciência e transcendência.[18] Esta última é a que mais favorecia a ideia henoteísta, pois a divindade principal estava muito longe e não deve ser incomodada. Olorum não atuava de forma imanente. Ele é, ainda, visto como um rei muito importante, juiz imparcial e único.
Visto que Olorum não deve ser importunado, o povo recorria a intermediários, que são os orixás. Na mitologia iorubá (embora haja outras histórias), Ogum, Xangô, Oxossi, Oxum e Eleqqua eram filhos de Olorum e Yembo. Seus filhos eram todos orixás.
Ainda na mitologia, Exu era também um dos orixás, um dos filhos de Orunmilá, outro orixá. Almeida conta que, “Nessa época havia muitos orixás, mas Exu era o mais corajoso, inteligente e brigão. Nas reuniões tomava a frente em tudo, e brigava com os outros. Por isso deixavam-no fazer o que quisesse, e concordavam com tudo que dizia. Assim Exu ficou sendo o braço direito de Orunmilá”.[19]
Outro nome conhecido é Iemanjá, “o orixá do rio Ogun, na Nigéria, sendo conhecida também como Orisa-Odo, e sua saudação é "Odo-Iya" - Mãe do Rio. O nome Yemoja significa Yeye-omo-eja - mãe dos peixes” A mitologia conta que, ela “era uma mulher honesta, forte e respeitada. Um dia seu filho, já adulto, ficou perturbado (...) e passou a tentar matá-la. (...) Um dia ele violentou-a e ela com vergonha fugiu da cidade. O filho seguiu-a para matá-la com uma faca. Antes de ser atingida Yemoja caiu para trás e morreu. Dos seus seios brotou muita água, formando òsá, a lagoa. De seu corpo saíram muitos orixás: Olosá, Olokun, Osoosi, Osun, e outros menos conhecidos”.[20]
Para Costa é mais provável que seja da “cabula” que venha a macumba, que por sua vez originou a umbanda.[21] Cabula é uma fusão das práticas dos bantos com o espiritismo. Esse nome é uma deturpação do vocábulo cabala. Carneiro por sua vez, sugere que macumba vem de “mcumba”, plural de cumba (mestre de uma dança semi-religiosa, o jongo), ou seja, uma reunião de jongueiros (dançarinos do jongo).[22]
Oliveira comenta que a macumba primitiva, “longe de ser um culto organizado, era um agregado de elementos da cabula, do Candomblé, das tradições indígenas e do Catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar os diversos pedaços que lhe davam forma”.[23]
Neves diz que a “palavra macumba deriva de macumbo, que significa casa de quilombola, formada por negros refugiados em florestas, como em Palmares, que cultuavam os espíritos de seus antepassados e sonhavam com sua volta a África.”[24]
É realmente muito difícil trazer informações científicas e precisas sobre a origem da macumba. Nem mesmo os adeptos das religiões afro possuem unanimidade quanto ao entendimento de coisas básicas de sua religiosidade. Trindade conta que, “muita gente da umbanda desconhece o verdadeiro trabalho dos exus, confundindo os guardiões da lei com seres de baixo nível, que se passam por exus em alguns terreiros, e que na verdade são aqueles conhecidos como kiumbas”.[25]
Walter Martin comentou que, “quando alguém passa a estudar os cultos afros, uma das coisas que observa é a impossibilidade de se fazer uma análise objetiva sobre a origem ou a atuação dos orixás, devido a tantas informações contraditórias”. Isso acontece porque a maioria das informações variam de um terreiro para o outro, de uma região para a outra, de um sacerdote para o outro e até mesmo de uma entidade para a outra.[26]

A macumba e o espiritismo
O Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, diz que a palavra “espiritismo” tem sido usada para “descrever qualquer grupo que defenda a comunicação com os mortos”.[27]
Gaarden diz que, “juntamente com a umbanda, o batuque, o xangô e o tambor de mina, o candomblé representa o melhor exemplo de politeísmo explícito que temos no Brasil.”[28] Estas várias divindades são os orixás (ancestrais africanos divinizados) exus (orixá da comunicação), caboclos (espíritos de índios), pretos velhos (espíritos de escravos), erês ou ibeijadas (espíritos de crianças) e espíritos de baianos, boiadeiros, mineiros e marinheiros. Sem falar das pombas giras (forma equivalente feminina de exus).
A umbanda nasceria através da fusão “de representantes da classe mais pobre com elementos da classe média egressos do espiritismo Kardecista”.[29]
Existem diferenças consideráveis entre o espiritismo kardecista e o umbandista. Inicialmente, vale comentar que, no primeiro há a postulação de um Deus criador, possuidor de atributos naturais (onipotência, onisciência e onipresença) transcendente e não imanente, inacessível aos homens. Mais próximos da humanidade estariam os espíritos dos mortos, cuja missão é ajudar os vivos como meio de expiação para suas faltas nas vidas passadas.
A comunicação com esses espíritos se dá, segundo a doutrina kardecista, através de médiuns. Embora as duas linhas de espiritismo assumam a comunicação com mortos, Ortiz comenta que os espíritos consultados no umbandismo não podem ser confundidos com “um espírito de luz, como o é um espírito de médico, de padre, de freira, ou de um sábio qualquer, posto que no universo kardecista a cultura do espírito corresponde à cultura de sua ‘matéria’. Como poderia um analfabeto prescrever sabedoria? Quem levaria a sério a ignorância do espírito de um antigo escravo? – este deve permanecer em seu ‘lugar’”.[30]
O umbandismo já foi considerado como um baixo espiritismo ao passo que o kardecismo como o alto espiritismo. É a ideia de que os espíritos que são invocados nesta são superiores e mais evoluídos enquanto naquela é justamente o oposto.
O relato a seguir explica o raciocínio anterior: “É assim que, na Umbanda, ouvem-se coisas inusitadas como, por exemplo, o espírito de uma prostituta, que viveu e morreu na zona do Mangue, aconselhando uma dona de casa do Méier sobre como obter e proporcionar mais prazer no sexo. O mais interessante é que prestar esse tipo de ajuda também conta pontos na escala umbandista da evolução espiritual.”[31]
A Bíblia, por sua vez, traz severas proibições às práticas de comunicação com os mortos. Era proibida a prática gentia de dilacerar o corpo em busca ou em favor de algum morto. Tampouco o judeu deveria consultar alguém que já havia morrido (Lv 19.28-31). “àquele que se voltar para os que consultam os mortos e para os feiticeiros, prostituindo-se após eles, porei o meu rosto contra aquele homem, e o extirparei do meio do seu povo”, dizia o Senhor (Lv 20.6).
Saul em seus momentos de desespero buscou ao Senhor mas não pôde acha-lo. Nestas circunstâncias resolveu recorrer a uma espírita, a fim de ouvir uma resposta do já falecido profeta Samuel (1 Sm 28.11-13).
A Lei divina entretanto, era clara ao dizer que não deveria haver em Israel quem fizesse “passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro nem encantador, nem quem consulte um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos”. A opinião de Deus acerca dessas práticas era de que “todo aquele que faz estas coisas é abominável ao Senhor” (Dt 18.10-12).

Conhecendo as religiões afro-brasileiras
            De acordo com o censo de 2010, feito pelo IBGE, 588.797 brasileiros se identificaram como seguidores do animismo afro-brasileiro. Esse número não reflete de forma real a quantidade de adeptos que essas religiões possuem, pois muitas pessoas de outras religiões frequentam centros de umbanda, quimbanda, candomblé e até mesmo kardecista.
Alguns talvez por vergonha de se intitularem nominalmente um religioso afro-brasileiro e outros por fazerem parte de outra denominação, como a católica, por exemplo, não entraram para a estatística do IBGE. Podemos citar também evangélicos que visitam tais centros, embora a quantidade, se comparada às demais religiões, seja consideravelmente menor.
            Embora as religiões afro-brasileiras sejam generalizadas por parte dos leigos no assunto, elas são distintas entre si. Queremos nesta seção comentar, ainda que resumidamente, as particularidades das seis principais: catimbó-jurema, batuque, tambor de mina, candomblé, umbanda e quimbanda.
            Catimbó-jurema: é um tipo de culto xamânico em que foram adotados elementos mágicos europeus, rituais indígenas e práticas católicas. Está mais presente no nordeste brasileiro. Nesta religiosidade, cultuam-se os santos católicos, Jesus, ervas sagradas e a Jurema, uma árvore nativa do agreste e sertão nordestinos e que possui grande concentração de uma substância alucinógena (dimetiltriptamina). Seus rituais consistem em cantigas, toques, ingestão da Jurema e de incorporações dos mestres da Jurema (adeptos que após morrerem foram encantados e transportados milagrosamente para este estado espiritual, no qual aconselham e operam curas em seus atendimentos). Esses mestres seriam neutros em sentido de fazerem o bem ou o mal. Além dos mestres, há a possibilidade da incorporação dos caboclos, espíritos de pajés e guerreiros indígenas.
            Batuque: é uma religião com maior concentração no estado do Rio Grande do Sul. Nesta religião, os orixás são adorados e recebem oferendas, inclusive de aspectos culturais, como chimarrão, polenta, batata inglesa assada e churrasco. Uma das possibilidades da origem dessa religião, é a implantação através de uma escrava vinda de Pernambuco. As semelhanças do batuque gaúcho com o xangô pernambucano são grandes e o alcance se deu a países como Argentina, Uruguai e Paraguai, dentre outros. Não existe uma hierarquia estruturada em cargos sacerdotais. Seus médiuns são “filhos de santo” e podem ser chamados de Babalorixá ou Iyalorixá. Há, ainda, rituais de culto destinados aos eguns (espíritos dos mortos). Nos rituais, as rezas para os orixás e os eguns são feitas na língua ioruba ao som de tambores. Em seus rituais são usadas folhas e ervas sagradas e interpretação do jogo de búzios.
            Tambor de mina: é uma religião mais forte no Maranhão, Pará e Amazonas. À semelhança das demais, é um culto aos voduns, orixás e caboclos, além de possuir características de transe e incorporação. Os voduns são filhos e descendentes da deusa Mawu (deusa-suprema dos povos Ewe e Fon) com Lissá. Eles recebem oferendas de alimentos e de animais. Eles são incorporados e dão conselhos. Nos rituais do tambor de mina, há também danças e batucadas nos tambores. Nesta religião há hierarquia sacerdotal. Outro culto associado ao tambor de mina é a encantaria ou terecô.
            Candomblé: As duas principais religiões afro-brasileiras são o candomblé e a umbanda. Dos 588.797 adeptos de todas as religiões afro-brasileiras, 407.331 (69%) são umbandistas, 167.363 (28%) são candomblecistas e 14.103 (3%) são de outras declarações de religiosidades afro-brasileiras. O Candomblé está mais concentrado no estado da Bahia e é uma religião na qual se cultuam orixás, voduns e minkisi (divindades da mitologia bantu). Também está presente em outros países como Uruguai, Argentina, Venezuela, Colômbia, Panamá, México, Alemanha, Itália, Portugal e Espanha. Suas entidades recebem oferendas através de animais, vegetais e minerais, cânticos, danças, roupas especiais e jogo de búzios. Seus sacerdotes são o babalorixá (pai de santo) e a iyalorixá (mãe de santo). Depois que estes morrem, são chamados de egunguns e são cultuados. No candomblé são feitos despachos (também chamados de ebó ou sacrifício) tanto para o bem quanto para o mal. São oferecidos pipocas, farofa de azeite-de-dendê, ou no sacrifício de animais a ele dedicados, cão, galo, ou bode, de preferência pretos.
Umbanda: esta religião é de origem brasileira. Nasceu por volta de 1908. Os umbandistas se reúnem em templos, centros, tendas ou terreiros. O médium incorpora pretos-velhos, caboclos, exus, marinheiros, baianos e ciganos, dentre outros e as pessoas que vão em busca dessas entidades o fazem com o intuito de obterem ajuda e conselhos para suas vidas, além de curas, descarregos, e soluções para problemas espirituais diversos. Os umbandistas se auto intitulam como espiritismo de magia branca.
Quimbanda: trata-se de uma ramificação da umbanda em que as forças negativas (espíritos atrasados) são manipuladas. Nas oferendas são colocadas bebidas alcoólicas como cachaça, uísque ou conhaque, além de charutos, velas, comidas e animais. É também chamada de magia negra. Despachos para prejudicar ou atacar a vida de terceiros são praticados nesse ramo da religiosidade afro-brasileira. Tendo em vista esses despachos, o cristão pode “pegar” macumba?
           
A macumba pega no cristão?
A resposta para essa pergunta pode variar no meio dos grupos evangélicos. Alguns representantes, principalmente de linhas neopentecostais e cuja ênfase recai ao movimento de batalha espiritual, acreditam que sim. Em contrapartida, as igrejas históricas, tradicionais e pentecostais históricas (isso de uma forma genérica) acreditam que não. É difícil rotular porque atualmente algumas igrejas históricas e tradicionais são influenciadas pelas ideias que estamos discutindo.
Para os adeptos do movimento de guerra espiritual o cuidado deve ser muito grande, pois objetos que tenham sido supostamente consagrados a espíritos malignos podem afetar a vida dos crentes. Essa crença é chamada de fetichismo, isto é, o culto supersticioso aos fetiches, amuletos e talismãs. Koch define fetiche como “um objeto artificial que se adora ou venera ou que é levado em cima para a segurança pessoal. Crê-se que os fetiches estão dotados ou animados de certo poder”.[32]
Rebecca Brown, por exemplo, uma autora conhecida do movimento de batalha espiritual ensina que, quando um feiticeiro coloca objetos da pessoa que quer enfeitiçar (pedaço de cabelo, botão ou fragmentos de roupa, unha ou o nome escrito ao invés de objetos pessoais) em seu ritual, o faz com pelo menos 5 propósitos: 1) reclamar o local que está realizando o feitiço para si e para satanás; 2) colocar demônios ao redor de todo o limite da propriedade com o objetivo de guardá-la; 3) colocar demônios especiais (abridores) que dão acesso à entrada para que o agoureiro possa chegar à propriedade em projeção astral; 4) colocar demônios sentinelas a fim de vigiar e informar tudo o que se passa naquela propriedade e 5) colocar demônios que vão amarrar e cegar todos os que entrarem na propriedade, aprisionando-os em jau­las.[33]
Nas religiões afro, esses demônios seriam os guias, orixás, caboclos, pretos velhos, exus, etc. O meio para desfazer, ou quebrar essas maldições seria examinar a área onde foi feito o feitiço, andar sobre ele como um ato profético baseado na promessa mosaica (Dt 11.24), declarar que o local é santo e pedir que Deus envie anjos para aquele local.[34]
A Dra. Brown, diz ainda, que o crente deve tomar cuidado com os pertences que tem. É bom que vasculhe a casa, pois muitos objetos que possui podem ter sido consagrados a demônios, até mesmo brinquedos infantis.[35]
De acordo com Linhares, tais objetos devem ser lançados fora, preferencialmente queimados ou destruídos.[36] Existe até uma contradição com esse ensino, pois em alguns livros de batalha espiritual, seus autores colocam fotos como ilustração para seus leitores. Será que seus livros também deveriam receber tal destinação?
As maldições, provenientes de encantamentos, mandingas, macumbas, ou de qualquer outro meio, traria efeitos não apenas a pessoas, mas a locais também. Partindo desse pressuposto, teríamos que ter muita cautela, pois hospitais, escolas, prefeituras, lojas, fábricas, restaurantes, hotéis e até nossas igrejas podem estar sob a influência de uma macumba que alguém fez.[37]
Ao contrário do estereótipo popular, a maioria dos praticantes das religiões-afro no Brasil está concentrada no estado do Rio Grande do Sul. Se aceitarmos a ideia de que os feitiços (macumbas) trazem influência sobre locais, poderíamos então concluir que a rivalidade entre gremistas e colorados está muitíssimo equilibrada nos terreiros gaúchos, visto que seus times não têm tido muita expressividade no futebol brasileiro.

Considerações finais
O Brasil é um país místico por natureza. O medo de “pegar” macumba é grande por parte de algumas pessoas. Por isso, alguns andam com galhos de arruda na orelha, não saem de casa sem fazer “em nome do Pai”, passam longe de uma oferenda na encruzilhada e fazem até simpatia para afastar o mau-olhado.
Existem também os evangélicos que estão sempre atribuindo à obra de macumbaria o fracasso de seus casamentos, o mau negócio que foi empreendido, o filho que está nas drogas, etc. Sempre temos alguns membros em nossas igrejas com dúvidas e até medo de ficarem “macumbados”. Alguns adotam posturas supersticiosas e alguns ensinos têm fortalecido essa prática no arraial evangélico.
Respondendo à pergunta da seção anterior: não! O crente não pega macumba. Melhor dizendo, O cristão autêntico, aquele tem vida com Deus, que não dá lugar ao diabo (Ef 4.27), que anda sóbrio e vigilante (1 Pe 5.8), que resiste ao tentador (Tg 4.7), este sim, jamais ficará “macumbado”. O Apóstolo João bem nos lembra: “sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes o guarda aquele que nasceu de Deus, e o Maligno não lhe toca” (1 Jo 5.18). Balaque bem que tentou, mas “não há magia que possa contra Jacó, nem encantamento contra Israel” (Nm 23:23a).



Notas



[1] OLIVEIRA, José Henrique Motta. Entre a Macumba e o Espiritismo: uma análise comparativa das estratégias de legitimação da Umbanda durante o Estado Novo. UFRJ, 2007, p. 92.
[2] CHAMPLIN, Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Candeia. Vol. 4. 1991, p. 23.
[3] GIMBEREUÁ, Ogã. Ebós Feitiços no Candomblé. Eco, 1969; D'OBALUAYÊ, Batista. Feitiços e Ebós no Candomblé. Império da Cultura LTDA, 2011.
[4] GAARDEN, Jostein. O livro das Religiões. Cia das Letras, 2001, p. 318.
[5] BRAGA, Lourenço. Umbanda e quimbanda. Spike, 1961, p. 12-15.
[6] CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de. Kardecismo e Umbanda. Pioneira, 1961, pp. 54,55.
[7] Grande Dicionário Brasileiro Melhoramentos Ilustrado, vol. 3, 1975.
[8] TRINDADE, Diamantino Fernandes. Você sabe o que é macumba? Você sabe o que é exu? Icone, 2013, p. 41.
[9] OLIVEIRA. Op. Cit., p. 91.
[10] CHAMPLIN. Op. Cit.
[11] BRAGA. Op. Cit., p. 13.
[12] CHAMPLIN. Op. Cit., p. 24.
[13] RYRIE. Charles C.. Bíblia de Estudo Anotada e Expandida. Mundo Cristão. Comentário sobre Nm 22.28.
[14] BASTOS, Abguar. Os Cultos Mágico-Religiosos no Brasil. Hucitec, 1979, pp. 29,30.
[15] LIMA, Delcyr de Souza. Analisando crenças espíritas e umbandistas. Casa Publicadora Batista, 1970, p. 88.
[16] GAARDEN. Op. Cit., pp. 317,318.
[17] ALMEIDA, Maria Inez Couto de. Cultura Iorubá: costumes e tradições. Dialogarts, 2006, p. 94.
[18] Ibid, p. 97,98.
[19] Ibid, p. 100.
[20] Ibid, pp. 111,112.
[21] COSTA, Valdeli Carvalho da. Umbanda: Os “seres superiores” e os Orixás. Loyola, 1983, v. 1, p. 92.
[22] CARNEIRO, Edson Apud MAGNANI, José Guilherme. Umbanda. Ática, 1991, p. 22.
[23] OLIVEIRA. Op. Cit., p. 93.
[24] NEVES Apud TRINDADE. Op. Cit., p. 41.
[25] TRINDADE. Op. Cit., p. 16.
[26] MARTIN, Walter. O Império das Seitas, volume IV. Betânia, 1993, p.164.
[27] MATHER, Georg; NICHOLS , Larry. Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo. Vida, 2000, p.152.
[28] GAARDEN. Op. Cit., p. 318.
[29] OLIVEIRA. Op. Cit., p. 93.
[30] ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. Brasiliense, 1999, p. 46.
[31] LIGIÉRO, José Luiz e DANDARA. Umbanda: Paz, Liberdade e Cura. Nova Era, 1998.p. 65.
[32] KOCH, Kurt E. Ocultismo y cura de almas. Clie. 1968, pp. 119, 120.
[33] BROWN, Rebecca. Jaulas e Maldições. In: Vasos para Honra. Danprewan, 1998.
[34] Ibid.
[35] BROWN, Rebecca. Maldições não quebradas. Danprewan, 2009, p. 43.
[36] LINHARES, Jorge. Bênção ou Maldição. Getsêmani, 1992, p. 41.
[37] Ibid, p. 43.