quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Vingança pertence a Deus

Vingança é um prato que se come frio, diz o ditado popular. O sabor desse prato não é amargo e nem salgado, mas doce, segundo pesquisa realizada por neurocientistas suíços que se basearam em tomografias cerebrais.[1]
A pesquisa, liderada pelo Professor Dominique de Quervain, da Universidade de Zurique, consistiu em uma atividade realizada com duplas. Afirmando que se tratava de um estudo econômico, quinze estudantes do sexo masculino e de idade entre 20 e 30 anos se submeteram a um jogo que envolvia trocas monetárias.
Nesse jogo, um dos jogadores (A) podia conceder todo o seu dinheiro ou parte dele a seu par (B), o qual poderia devolver parte do que recebeu ou nada. Caso o primeiro jogador resolvesse dar todo seu dinheiro, sua verba poderia ser multiplicada quatro vezes e o jogador B poderia dividir sua recompensa com A. O primeiro jogador teria motivação suficiente para dar todo seu dinheiro a B, uma vez que ambos poderiam sair beneficiados. Caso B se recusasse a dividir o montante, A poderia se vingar de seu par, contanto que pagasse por isso.
Enquanto os jogadores passavam pelo evento, tomografias por emissão de pósitrons registravam a atividade cerebral deles, sendo possível verificar um claro padrão de atividade nos gânglios de base dorsal – área cerebral envolvida na sensação de prazer – quando um jogador penalizava o outro por ter sido egoísta. Os resultados da pesquisa mostraram que, as pessoas possuem uma sensação de auto satisfação e de prazer quando se vingam.

A vingança e a psicologia
Segundo a psicóloga Milena Frankfurt, o desejo de se vingar é algo inerente do ser humano, entretanto, o ato de se vingar e como se vingar “é particular e especifico de cada pessoa. Está bastante relacionado com a capacidade de perdoar que a pessoa exerce ou não durante a sua vida.”[2] A fim de mostrar a naturalidade desse sentimento, Milena comenta que, todos “nós já imaginamos aquela pessoa que nos feriu se machucando de alguma maneira, mesmo que em fantasia”.
Saber lidar com as frustrações da vida é um fator preponderante na visão psicológica sobre esse assunto. Pessoas rancorosas tendem a imaginar com mais frequência atos vingativos, sem necessariamente executar o que está em suas mentes. Em outros casos, acontece a autoflagelação psíquica, na qual a pessoa ofendida usa toda a energia de sua amargura contra si mesma, vivendo estágios de depressão, transtornos alimentícios e/ou problemas psicossomáticos.
Na sociedade hodierna conseguimos verificar esse tipo de comportamento em situações ocorridas na dissolução de um casamento ou nas brincadeiras de crianças que outrora eram taxadas como pueris, isto é, típico do período compreendido entre a infância e a adolescência.
No primeiro caso, atitudes vingativas começam a brotar quando o casamento não vai bem e os pais usam os filhos para servirem de arma um contra o outro. Depois de consumado o divórcio, as coisas tendem a piorar. Usualmente um dos ex-cônjuges, inconformado com a separação, passa a difamar, desmoralizar e/ou criar descrédito sobre a figura da outra parte para o(s) filho(s). Esse processo é chamado de Síndrome da Alienação Parental (SAP) e apesar de produzir satisfações esporádicas a quem pensa se vingar, prejudica a formação dos filhos.[3]
O caso das brincadeiras de crianças já foi tratado como algo tão comum na vida humana, que chegou a ser comparado como uma passagem para a vida adulta[4]. Gozações com o mais gordinho da turma, o mais alto, o mais magro, o mais narigudo, etc, fizeram parte da infância de todas as pessoas. Até o profeta Eliseu passou por essa situação constrangedora quando os meninos gritavam repetidamente “sobe calvo” (2 Rs 2.23).
Todavia, as consequências desses bullyings – baixa autoestima, baixo rendimento, estresse, introspecção, timidez, ansiedade e agressividade, dentre outros – têm despertado a atenção de estudiosos para outro rumo. Essas consequências podem evoluir para estágios ainda mais graves e gerar transtornos psicopatológicos profundos, tais como fobias, pensamentos suicidas, depressões e desejos de vingança.
É o caso trágico do massacre em Realengo que chocou o Brasil em 2011. Wellington Menezes de Oliveira entrou na Escola Tasso da Silveira e matou 12 crianças, além de ferir outras 12. Em um dos vídeos encontrados pela polícia, o atirador dizia que sofria bullying e justificou seu ato criminoso dizendo: “que o ocorrido sirva de lição, principalmente para as autoridades escolares, para que descruzem os braços diante de situações em que alunos são agredidos, humilhados, ridicularizados, desrespeitados".[5]

A Vingança na Justiça brasileira
Nos vários casos noticiados pela mídia brasileira, podemos ver o desejo de punição das pessoas quando algo trágico acontece, principalmente quando o veículo de informação é um canal que abusa do sensacionalismo. Normalmente essa punição está associada ao desejo de vingança. Há uma linha muito tênue entre uma e outra.
Este sentimento vingativo é constantemente visto nas produções hollywoodianas, nos mais variados filmes e seriados e possui grande aceitação do público. Muitas tramas seguem o mesmo tipo de raciocínio: alguém faz algum tipo de mal para alguma família e quem foi prejudicado resolve se vingar do ocorrido. Muitos telespectadores ficam torcendo para que a vingança ocorra com êxito.
No filme “Tempo de Matar”, é difícil não haver identificação (empatia) entre o personagem que se vinga e quem o assiste. O longa, além de possuir um dos melhores diretores de cinema dos EUA, Joel Shumacher, e um elenco de primeira (Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Mathew McConaughey, Oliver Platt e Kevin Spacey), consegue estimular o senso de justiça (para não dizer senso de vingança) que há em cada ser humano.
A história se passa em Canton, Mississipi. Dois homens brancos espancam e estupram uma menina negra de dez anos. Os estupradores foram presos, mas teriam o valor de fiança decretada no tribunal. O pai da garota, Carl Lee Hailey (interpretado por Jackson), fica atônito e desesperado, e resolve fazer justiça com as próprias mãos, matando-os na frente de todos e vingando-se do ato cruel que eles cometeram.
Embora sua sede de vingança tenha sido saciada, Hailey é preso e enfrenta um julgamento complexo por conta de seu duplo assassinato. O filme é capaz de dividir a opinião dos telespectadores, afinal, estamos de frente de um caso trágico que se finalizaria com impunidade e ao mesmo tempo diante de um ato criminoso de justiça feita com as próprias mãos. Dificilmente quem assiste o filme não torce para que Hailey seja absolvido.
No Direito Brasileiro, a autotutela, chamada popularmente de “justiça com as próprias mãos”, é crime previsto no Artigo 345 do Código Penal Brasileiro, mas podemos encontrar algumas exceções (excludentes de ilicitude), como nos casos que se seguem:
I – Em casos como o do Movimento Sem Terra (MST), nos quais pessoas tentavam se apossar de alguma propriedade, o possuidor tem direito de se manter no local, usando até mesmo de força própria, contanto que essa resistência não ultrapasse o necessário à manutenção ou restituição da posse (Artigo 1.210 do Código Civil de 2.002);
II – Qualquer pessoa pode efetuar voz de prisão caso se depare com alguém em flagrante delito (Artigos 301 e 302 do Código de Processo Penal);
III – De acordo com o Artigo 23 do Código Penal Brasileiro, não há crime quando o agente pratica o fato em quatro circunstâncias: 1) em estado de necessidade (detalhado no Artigo 24), 2) em legítima defesa (detalhado no Artigo 25), 3) em estrito cumprimento de dever legal ou 4) no exercício regular de direito.

Origens do sentimento de vingança
O sentimento de vingança, bem como o comportamento agressivo, tem sua gênese, segundo a psicologia, primeiramente no instinto do homem. Além disso, fatores como a aprendizagem, aspectos situacionais, frustrações e provocações, contribuem para a execução desses atos. Essas posições não levam em conta fatores de personalidade, fisiológicos e sociológicos.[6]
A exemplo do filme supracitado, os moradores do bairro Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, invadiram, depredaram e picharam um imóvel do local.[7] O motivo seria a indignação da população após o estupro e morte de Angélica Barbosa Romasco, de oito anos. A menina brincava na frente de casa na noite do dia 15 de Maio deste ano. Seu corpo foi encontrado algum tempo depois em um terreno baldio do bairro, com várias perfurações e hematomas no corpo.
O estuprador desfigurou o rosto da menina com um alicate e usou uma chave de roda para matá-la. Andreus Vieira Batista, que já conhecia a criança, bem como a família, confessou o crime e não mostrou sinais de arrependimento, quando preso no dia 17 de Maio.
Movidos por fatores de frustrações, os moradores do bairro destruíram o imóvel onde o criminoso residia no dia 18 de Maio, numa clara demonstração de inconformismo e descrença em relação ao poder de punir do Estado.
Outra possível porta de entrada para os atos agressivos e consequentes sentimentos vingativos pode estar na sala de nossa casa. Somos atraídos por filmes de ação, de lutas, policial e de suspense. A presença de armas e de violência física, emocional e verbal está constantemente presente nessas categorias de filmes, os quais estão à disposição de toda faixa etária, inclusive das crianças, apesar da censura. De acordo com alguns estudos[8], esses tipos de cenas podem trazer influências comportamentais nas pessoas, como insensibilidade frente a atrocidades, imitação do modelo cinematográfico e atitudes violentas como resposta às frustrações.
Além dos milhares de filmes que instigam o sentimento vingativo, existem outras programações televisivas que fazem sucesso com esse mesmo tipo de trama. No Brasil não faltam novelas (nacionais e mexicanas) e séries importadas dos EUA. Todos esses programas retratam os fatores citados acima, que originam o sentimento vingativo, seja no triângulo amoroso da novela, na lembrança que o lutador tem em sua luta final do filme ou nas histórias das séries americanas.
Por falar em série, recentemente a maior emissora de TV brasileira começou a transmitir um seriado que conquistou um dos maiores índices de audiência estadunidenses. Revenge, que no português significa “Vingança”, é uma série baseada no livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas.
O seriado global conta a saga vingativa de Amanda Clarke, alguém que perdeu o pai e a infância depois de uma conspiração. David Clarke, seu pai, foi acusado injustamente de terrorismo e morto na prisão para que a verdade permanecesse oculta enquanto Amanda passou a infância numa casa de detenção juvenil. Assim que completou dezoito anos, ela foi solta, recebeu sua herança e uma caixa com informações sobre as pessoas que armaram para seu pai. Decidida a se vingar dessas pessoas, ela muda seu nome para Emily Thorne e volta a sua antiga cidade, Hamptons.
Os principais conspiradores seriam o casal Conrad e Victoria Grayson – antigo patrão e antiga amante de David – mas no desenrolar dos episódios percebe-se que eles são apenas a ponta do iceberg. Para concluir sua vingança, Amanda conta com o apoio de seu amigo bilionário, Nolan Ross, um gênio da espionagem e da vigilância eletrônica, e de sua melhor amiga, Ashley Davenport, que trabalha para os Graysons.
A série é produzida pela emissora norte-americana ABC e já está com sua terceira temporada agendada nos EUA, além de vir mantendo altos índices de audiência. No Brasil a primeira temporada estreou em 14 de Abril desse ano. De acordo com o site oficial, Revenge não é uma história sobre perdão, mas um show sobre retribuição.[9]

O lado bom da TV
Mas nem tudo no cinema é ruim. Existem alguns filmes que dramatizam muito bem a atitude oposta à da vingança: o perdão. Dentre os poucos filmes, podemos destacar pelo menos dois: “O Poder da Graça” e “Graça e Perdão”, lançados em 2010 e 2011, respectivamente.
Em “O Poder da Graça”, vemos Mac McDonald, um policial que perdeu seu filho num acidente ser transformado pela Graça de Deus. O menino morreu atropelado por bandidos enquanto andava de bicicleta na calçada de casa e essa tragédia trouxe grandes revoltas no pai do menino que não conseguiu superar a ira e sentimentos vingativos por vários anos. Sua vida se tornou rancorosa e amargurada, o que lhe impediu inclusive promoções no departamento de polícia. Embora ele fosse mais experiente, viu seu companheiro assumindo o posto de Sargento, o qual passou a ser seu parceiro.
Em casa as coisas também não iam bem. Seu relacionamento com a esposa era péssimo, pois sua amargura lhe fazia ataca-la com palavras revestidas de ódio. Seu filho mais novo não tinha um pai amigável, com quem podia conversar e ia muito mal na escola. Tudo parecia terrível naquela família e depois de uma discussão entre pai e filho, o rapaz se ajuntou com alguns ladrões num assalto a uma loja. O pai, em seu serviço policial, foi até o local e atirou no próprio filho sem saber que era ele. Seu parceiro, que era pastor, ofereceu-lhe um ombro amigo enquanto via-o arrasado, mas recebeu palavras iracundas e racistas, ainda recheadas de amargura e agora de culpa, pelo tiro que deu no próprio filho.
O poder da Graça é mostrado em duas situações: primeiramente na cirurgia que o rapaz precisou ser submetido. Um de seus rins não funcionava e o outro que era normal teria que ser retirado, pois foi baleado. Se não encontrasse um doador, corria risco de morte. Nesse ínterim é que o Sargento Wright, pastor e parceiro de McDonald se dispõe a doar um de seus rins para ajudar o filho de seu colega. Essa atitude mexeu com o policial durão e o levou a ter um encontro com Cristo.
O segundo ato de Graça do filme se dá no final dele. Um dos homens que dirigia o carro que atropelou o menino foi preso, converteu-se a Jesus e queria pedir perdão aos pais do garoto, mas não conseguia chegar até eles. Um dia, quando o casal estava na igreja, o homem consegue entrar e pedir perdão aos pais do garoto. Somente um coração quebrantado pela Graça de Deus poderia retribuir o mesmo favor divino de perdoar a quem o havia ofendido.
Já o filme “Graça e Perdão” mostra a dificuldade do ser humano em perdoar. O longa é baseado em fatos reais e conta como um homem entrou numa escola de uma comunidade Amish no dia 02 de Outubro de 2006. Nessa ocasião, o homem matou cinco meninas e deixou outras cinco em estado crítico. Logo em seguida, ele se matou.
As pessoas que perderam as filhas perdoaram o assassino e se mobilizaram para ajudar a família do atirador. Todavia, uma das mães não conseguiu perdoa-lo tão facilmente assim. Ela sabia do que a Palavra de Deus diz. Seu marido e sua comunidade conseguiam praticar o perdão, mas ela não estava tendo forças para isso, até que ouve o relato de como sua filha reagiu antes de morrer, liberando Graça e Perdão sobre a família do homem que a fez esse terrível mal.

A Vingança e a música
Até mesmo as músicas possuem o tema presente em suas letras. No meio secular podemos fazer algumas citações. Lupcínio Rodrigues, compositor que marcou as décadas de 30 a 50, buscava em sua própria vida inspirações para suas canções. Ele acreditava que um homem devia ter uma mulher em casa e várias outras na boemia. Dessa forma, suas músicas eram constantemente baseadas em suas experiências extraconjugais, como é o caso da música “Vingança”.
Lupcínio foi traído por uma de suas amantes, cujo nome era Mercedes.[10] Em um desabafo a respeito desse ocorrido, ele escreve “Vingança”, que foi gravada por Linda Baptista em 1951. A canção fez grande sucesso no Brasil e até mesmo no Japão.
Nessa música, ele descreve como gostou quando ficou sabendo que encontraram sua ex-amante em um bar, bebendo e chorando. Perguntaram-na sobre ele, mas a resposta não saiu porque um soluço cortou sua voz. A canção é finalizada com o sentimento vingativo extenuado em suas letras: “Mas, enquanto houver força em meu peito, eu não quero mais nada. Só vingança, vingança, vingança. Aos santos clamar, ela há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho seu pra poder descansar.”
Essa música lhe rendeu um bom dinheiro e Lupcínio comprou um carro, o qual batizou pelo nome homônimo da canção. Essa mesma composição já foi interpretada por outros grandes nomes da música brasileira, como Maria Bethânia e Nelson Gonçalves.
Numa música mais recente, Sorocaba, que faz dupla com Fernando, mostra um dos motivos pelos quais algumas pessoas acabam traindo o cônjuge: “A Vingança” (nome da música). Determinada mulher tomou seu banho, vestiu-se com a melhor roupa, perfumou-se, tomou um gole de whisky, fumou seu cigarro, pegou as chaves do carro e saiu para se vingar: “É hoje que ela vai se vingar, que ela vai se entregar. Vai ficar com o primeiro que ver (...) A vingança vai doer”.
Até mesmo letras religiosas não escaparam desse tema. Certa música interpretada pela cantora gospel, Damares, relata o período de adversidade que enfrentamos. Muitas vezes, nesses momentos em que precisamos de ajuda, as pessoas se afastam e nos sentimos mal com isso: “Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na benção vão se arrepender, vai estar entre a plateia e você no palco (...) Quem sabe no teu pensamento você vai dizer: meu Deus, como vale a pena a gente ser fiel. Na verdade a minha prova tinha um gosto amargo, mas minha vitória hoje tem sabor de mel.”
Não é fácil enfrentarmos acusações injustas, difamações e maledicências. Muitas pessoas não sabem lidar com essas situações e acabam nutrindo um sentimento vingativo contra quem o fez. Na música gospel “Estou de Pé”, Rose Nascimento interpreta o desejo que se passa no coração de muita gente, o de mostrar para aquela pessoa que estamos por cima e não por baixo: “Vai lá e pega quem falou da minha vida, avisa que eu Estou de Pé. E quem contou o fim dos meus dias, avisa que eu Estou de Pé (...) Vai ter até quem não acredita e avisa que Estou de Pé”.
Seria interessante se descobríssemos alguma canção que se baseasse em Mt 5.44 ou Lc 6.28: “Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem”. “Bendizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam”. Será que encontramos?

Como as religiões enxergam a vingança?
As primeiras civilizações buscaram formas de se organizarem e uma delas era através das leis civis. Quando alguém cometia algo que desonrava a ética de determinado povo, deveria haver uma punição. Embora punição e vingança pareçam coisas muito distintas, elas estão mais próximas do que podemos imaginar. A punição é o que satisfaz quem sofreu prejuízo. A impunidade gera desejos de fazer justiça própria, o que leva à vingança.
Uma das formas mais antigas de punição é o da Lei de Talião, uma relação recíproca entre o crime e a pena, o famoso “olho por olho, dente por dente”, cujos primeiros indícios são encontrados no código de Hamurabi e na Lei de Moisés. Juntamente com suas leis civis, havia os conceitos religiosos. Vejamos como as principais religiões enxergam o tema vingança.
O Budismo ensina que, todas as ações “são comandadas pela mente:
a mente é o senhor delas, a mente é quem as fabrica”. Dessa forma, não se devem abrigar pensamentos hostis, de coisas que maltrataram, golpearam, derrotaram ou roubaram no passado, pois “aqueles que abrigam pensamentos como esses a raiva nunca será apaziguada”, uma vez que “a raiva nunca é apaziguada com outras ações enraivecidas, ela é apaziguada pela não-raiva”. Para o budismo, essa é “uma lei imutável e atemporal” (Dhammapada 1.3-5).
O islamismo ensina no Alcorão que, “se tiverdes que vos vingar vingai-vos na medida em que fostes agredidos. E se tolerardes com paciência, melhor será para vós” (Surata 16.126). Além disso, faz alusão à lei de Talião: “Ó vós que credes, a pena do talião é prescrita contra quem infligir à morte: homem livre por homem livre, escravo por escravo, mulher por mulher” (Surata 2.178b).
Embora haja personagens e vários deuses vingativos em seus escritos sagrados, o hinduísmo, de uma forma genérica, também não incentiva a prática da vingança. Como esta é mais uma religião que crê em reencarnações e no Karma, a prática de se vingar formaria um ciclo interminável de mortes e nascimentos para aquele que o faz. Para os hindus, portanto, levar uma vida pacífica e de boas ações é melhor. Um trecho do Thirukural diz que, “perdoar ofensas é sempre bom, esquecer-se delas, traz ainda mais louvores” e que "aqueles que ferem os outros vingativamente são inúteis, enquanto aqueles que suportam estoicamente são como o ouro guardado" (Thirukural 152, 155).
O Taoísmo ensina uma busca de paz interior, de equilíbrio entre as coisas. Os três tesouros dos ensinamentos de Lao Tsé são a humildade, a simplicidade e a afetividade. Encontramos no capítulo 3 do Tao Te Ching, principal obra do Taoísmo, uma amostra do que seria a entrada dos males na vida humana: “Não valorizando os tesouros, mantém-se o povo alheio à disputa. Não enobrecendo a matéria de difícil aquisição, mantém-se o povo alheio à cobiça. Não admirando o que é desejável, mantém-se o coração alheio à desordem”. O homem sagrado, isto é, o homem que consegue unir a consciência pura com a vida infinita, deve esvaziar o coração de intenções, razões e emoções e encher-se de vitalidade. Dessa forma, ele não viverá na perversidade e evitará contendas.
O confucionismo foi influenciado pelo taoísmo e ensina princípios humanistas. Em sua doutrina maior, Jen, a prática da cortesia, complacência, bondade e benevolência são incentivadas, sendo, portanto, contrária a atos vingativos e violentos. Na obra doutrinal do confucionismo, “Os Analectos”, podemos ver esses ensinos: “...Existe uma palavra que possa guiar toda a nossa vida? (...) Não seria reciprocidade? O que não desejas para ti, não faça aos outros” (15.24). Ele ensina, ainda, que, “um homem sem humanidade não poderia viver por muito tempo na adversidade nem poderia conhecer a alegria por muito tempo. Um homem bom apoia-se em sua humanidade, um homem sábio beneficia-se de sua humanidade” (4.2), pois “se ele sobrevive sem isso é pura sorte” (6.19).
Para Alan Kardek, quem se vinga é “cem vezes mais culpado do que o que enfrenta seu inimigo o insulta em plena face”. O ato vingativo para ele, é como um costume selvagem, por isso, “Todo espírita que ainda hoje pretendesse ter o direito de vingar-se seria indigno de figurar por mais tempo na falange que tem como divisa: Sem caridade não há salvação!” e que o espírita não deve “ceder ao impulso da vingança, senão para perdoar”.[11]
Existe, ainda, a posição das religiões-afro frente às atitudes de vingança. Há livros no mercado que ensinam como prejudicar outras pessoas através de feitiços e encantamentos[12]. Alguns desses feitiços seriam: colocar uma pessoa louca, destruir, arruinar, colocar feridas, trazer separações matrimoniais, fazer perder tudo o que tem, fazer ir embora, fazer vingança e até mesmo matar.
E o cristianismo, o que diz? Vejamos a seguir.

A vingança no Antigo Testamento
Freud entendia que o sentimento de vingança é instintivo no homem, mas de acordo com a Bíblia, esse sentimento faz parte da depravação total, da natureza decaída do homem, da nossa herança na queda de Adão (Rm 5.12). Depois da queda, o homem passou a viver com tendência para o mal, nossa natureza foi corrompida e se tornou propensa para o pecado. Sproul disse que não somos pecadores porque pecamos, mas que pecamos porque somos pecadores, pois herdamos de Adão uma condição corrupta de pecaminosidade.[13]
Foi essa tendência que levou Caim a matar o próprio irmão. Movido de ciúmes, ele não quis ouvir a voz de Deus, que o advertiu a se dominar desse impulso repugnante, mas cedeu a suas inclinações carnais (Gn 4.7).
Devemos repreender nossos filhos e até castiga-los quando necessário (Pv 13.24; 22.15; 23.13,14). Todavia, deve haver controle emocional para que a punição não se torne em vingança. A repreensão é para correção e não para autossatisfação. Noé não se conteve e acabou usando de palavras imprecatórias contra seu neto Canaã (Gn 9.22-27).
Assim como Caim e Noé, temos vários outros exemplos de pessoas que agiram impulsionadas por suas emoções na Bíblia. Entretanto, o motivo desses casos serem narrados não é para que os copiemos e sim para que aprendamos com essas falhas e busquemos fazer o certo diante de Deus.
Embora haja casos de fracassos, há também casos onde a vingança foi derrotada. Esaú nutriu o desejo de matar seu irmão por vários anos. Só de Jacó pensar em Esaú quando retornava para sua terra, ele sentia frio na espinha. O ódio que estava alojado no coração de Esaú foi quebrado quando os irmãos se reencontraram e a vingança deu lugar ao quebrantamento (Gn 33.1-4).
Do mesmo modo, José, um dos filhos de Jacó, poderia ter agido vingativamente contra seus irmãos depois das terríveis experiências às quais foi submetido: os irmãos debocharam dele, tiveram ciúmes e quiseram mata-lo. Jogaram-no numa cisterna e depois resolveram vende-lo como escravo, como se José fosse um pedaço de pão. Quando se reencontrou com os irmãos aproximadamente vinte anos mais tarde, não ficou remoendo as coisas do passado, mas perdoou-os. De sua vida podemos tirar lições magníficas.[14]
Isso sem falar de Davi, que foi perseguido injustamente por Saul inúmeras vezes. Davi chega a descrever a sensação de ser perseguido em alguns de seus salmos. Ele até teve oportunidade de se vingar de Saul pelo menos duas vezes, mas não o fez, pois entendia que essa causa deveria ser julgada por Deus e não por ele (1 Sm 24; 26).
Temos, ainda, na Antiga Aliança, exemplos de contramedidas criadas por Deus a fim de evitar a propagação de vinganças sistêmicas. No caso de Caim, foi-lhe posto um sinal “para que não o ferisse quem quer que o encontrasse” (Gn 4.15). Com o advento da Lei, as punições objetivavam reciprocidade, evitando impunidade e reincidência. A máxima da Lei era vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé (cf Dt 19.20,21). Caso houvesse morte por legítima defesa, a pessoa que matou deveria ficar exilada em uma cidade de Refúgio até a morte do Sumo Sacerdote, a fim de evitar novas vinganças (Nm 35).

A vingança no Novo Testamento
Encontramos no Novo Testamento fortes referências sobre como lidar com os sentimentos vingativos. Os ensinos de Jesus começam logo em Suas primeiras palavras. Das nove bem aventuranças, podemos dizer que quatro dizem respeito a comportamentos opostos ao sentimento exposto: humildes de espírito, mansos, misericordiosos e pacificadores (Mt 5.3,5,7,9).
Ainda no sermão da montanha, Jesus explica que, embora a Lei de Moisés ensinasse o olho por olho, dente por dente, o plano divino é que não sejamos vingativos. Ao invés de respondermos na mesma moeda, devemos “dar a outra face” (Mt 5.39-41). Semelhantemente, Paulo ensina que não devemos responder o mal com mal, mas até mesmo ajudar aqueles que nos perseguem (Rm 12.20,21).
Em outras palavras, se alguém gritar com você, não há necessidade de revidar com gritos, pois a “resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Pv 15.1). Quando a pessoa revida a grosseria, acontece o interminável efeito pingue-pongue.  
Apesar da dificuldade humana, a melhor resposta para vencer a vingança é exercendo o perdão. Na parábola do credor incompassivo, Jesus mostra a necessidade de perdoarmos nossos semelhantes, pois as ofensas horizontais (entre os homens) não se comparam com nossas dívidas verticais (contra Deus).
Essa parábola foi proposta como ilustração para a dúvida de Pedro: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu hei de perdoar? Até sete? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete; mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22). Se Deus nos perdoou de uma dívida impagável, quem somos nós para negarmos o perdão às pessoas?
Esta doutrina está inserida na oração modelo que Jesus ensinou a seus discípulos (Mt 6.12-15) e pode ser vista também na teologia paulina (Ef 4.32). Ao invés de agirmos reativamente, obedecendo aos instintos de nossa natureza caída, devemos agir pró-ativamente, de forma pacífica, evitando intrigas, dissensões, facções, contendas e vinganças (cf Rm 12.18; Hb 12.14).
Questionado sobre qual era o maior mandamento da Lei, Jesus respondeu que o primeiro maior é amar a Deus de todo coração, alma e entendimento, fazendo alusão a Dt 6.5. Complementando a resposta, o Messias ainda deixou espaço para o que considerou o segundo maior: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39). Este segundo maior mandamento está registrado em Lv 19.18: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Lv 19.18 – grifos meus).
Apesar de tudo isso, não é tão simples assim amar ao próximo quando este nos fere sobremaneira. Não é fácil para um pai amar um homem que matou seu filho maliciosamente, ou para uma mãe perdoar alguém que tenha estuprado sua filha. O que fazer nessas circunstâncias? Como amar este inimigo? O conselho bíblico é para que “se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.18,19).
Um dos meios pelos quais Deus executa esta vingança é através da justiça humana. Ele usa as autoridades competentes para que os homens sejam julgados (Rm 13.1-4). Embora nem sempre esses órgãos executem as leis com eficácia e algumas leis nem sequer pratiquem uma verdadeira justiça, nada escapará do juízo vindouro de Deus. Neste juízo, a punição será o sofrimento, a perdição eterna e o banimento da presença do Senhor (2 Ts 1.4-10). Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (cf Hb 10.26-31).

Considerações finais
A vingança está presente nas mais variadas áreas da vida. Podemos encontra-la nos contos infantis, desenhos animados, artes, filmes, seriados, histórias em quadrinhos, novelas, mitologias, religiões, músicas, livros, esportes, jornais, história, sociedades, etc. Apesar de encontrarmos seus efeitos no externo, a vingança procede do interno (Mt 15.19,20).
A vingança pode até produzir prazer, pode até ser um prato que se come frio, pode até parecer saborosa, quem sabe até tenha sabor de mel? Apesar de tudo isso, ela não é a melhor resposta e certamente causará indigestão.
Quem ocupa a mente com vingança, sofrerá danos físicos, emocionais e espirituais. Físico porque a pessoa estará mais suscetível a outros tipos de doença, pois a liberação de cortisol no organismo reduzirá a defesa do organismo. Emocional porque o indivíduo estará amontoando lixo em seus pensamentos e não terá uma mente sã. E espiritual porque existirá sempre uma pedra de tropeço atrapalhando o crente em sua santificação e comunhão com Deus (Hb 12.14). Isso sem falar nos prejuízos sociais.
Ao invés de “pré-ocupar” a mente com vinganças, “pensai nas coisas lá do alto” (Cl 3.2). É melhor trazer à memória o que nos dá esperança (Lm 3.21), esquecendo-nos “das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante”, prosseguindo “para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus.” (Fp 3.13,14).
Notas


* Este artigo foi publicado pela Revista Defesa da Fé, Edição 105.
[1] KNUTSON, Brian. Sweet Revenge? Revista Science, Vol. 305, Issue 5688, 27 August 2004, pp. 1246-1247.
[2] Entrevista com Milena Frankfurt para a revista Coops. Disponível em: http://www.marisapsicologa.com.br/desejo-de-vinganca.html. Acesso em 05 de Julho de 2013.
[3] GARDNER, Richard. Parental Alienation Syndrome vs. Parental Alienation: Which Diagnosis Should Evaluators Use in Child-Custody Disputes? American Journal of Family Therapy. March 2002, pp. 93-115.
[4] MASCARENHAS, Suely. Gestão do bullying e da indisciplina e qualidade do bem-estar psicossocial de docentes e discentes do Brasil. Psicologia, Saúde & Doenças, 2006, 7 (1), pp. 95-107.
[5] Matéria sobre o massacre em Realengo. Disponível em: http://extra.globo.com/casos-de-policia/atirador-de-realengo-confessa-em-novo-video-que-bullying-motivou-massacre-1600031.html. Acesso em: 12 de Julho de 2013.
[6] RODRIGUES, Aroldo. Psicologia Social. Vozes, 1972, pp. 313-331.
[7] Matéria sobre menina de oito anos que foi estuprada e assassinada. Disponível em:  http://noticias.r7.com/sao-paulo/porteiro-suspeito-de-estuprar-e-matar-menina-de-oito-anos-e-preso-em-sp-17052013. Acesso em: 24 de Julho de 2013.
[8] RODRIGUES, Aroldo. Op. Cit. pp. 331-334.
[9] Sinopse das temporadas. Disponível em: http://abc.go.com/shows/revenge/about-the-show. Acesso em 01 de Agosto de 2013.
[10] Curiosidades sobre Lupcínio Rodrigues. Disponível em: http://vingancamusical.com.br/curiosidades.html. Acesso em 02 de Agosto de 2013.
[11] KARDEK, Alan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Federação Espírita Brasileira, 2013, p. 171.
[12] GIMBEREUÁ, Ogã. Ebós Feitiços no Candomblé. Eco, 1969; D'OBALUAYÊ, Batista. Feitiços e Ebós no Candomblé. Império da Cultura LTDA, 2011.
[13] SPROUL, R. C. Boa Pergunta! Cultura Cristã, 1999, p.98.
[14] COUTO, Vinicius. Os Três Choros de José do Egito. Ágape, 2013.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Legado dos Jesuítas no Brasil

Certa jovem está trabalhando em uma loja, vendendo roupas como de costume, quando é abordada por um homem que a chama no canto, a fim de lhe falar em particular:
- Moça, com licença. Sou pastor evangélico e preciso entregar uma revelação a você. Fizeram uma obra de feitiçaria contra sua família. Pagaram R$ 1.000,00 para acabar com seu casamento.
A moça ficou assustada com aquelas palavras e logo tratou de buscar uma forma de quebrar aquelas maldições, afinal, sua família está em jogo. Ligou a TV e viu outro pastor fazendo uma oração forte. Em seguida, o tele evangelista pediu que o telespectador colocasse um copo com água sobre o aparelho de televisão, pois iria orar repreendendo todos os tipos de demônios, cujos nomes são os mais variados.
Ela bebeu a água benta do pastor e depois decidiu fazer uma visita na campanha das causas impossíveis daquela denominação do universo neopentecostal do Reino de Deus. Chegando lá, a sessão de descarrego pegou fogo e os espíritos malignos tinham oportunidade de contar seus objetivos antes de serem expulsos. Depois desse fogo, o que pegou fogo foi a fogueira de dinheiro. Parecia a sarça que Moisés viu. Ardia em chamas, mas não se consumia.
A mensagem foi muito emocionante. A partir de agora a moça estava determinada a determinar. O desfecho daquela reunião de poder foi realizado com a proposta de que as pessoas levassem uma rosa ungida, pois este objeto protegeria a família e sugaria todos os maus espíritos e maus olhados daquela casa. A moça, mais do que depressa pegou a sua, pois tinha certeza que seria mais eficaz que o galho de arruda de sua avó. Ela estava se agendando para participar da próxima reunião, pois o pastor havia avisado que iria ungir os celulares para que cessassem as cobranças de cartão de crédito.
Esse caso é baseado em fatos reais e num primeiro momento pode surgir o seguinte questionamento: o que ele tem a ver com o legado dos jesuítas? Somente obteremos a resposta para essa pergunta voltando alguns anos na história.

A origem dos Jesuítas
Os Jesuítas fazem parte de uma ordem religiosa da Igreja Católica chamada “Companhia de Jesus”. Esta ordem foi fundada em 1534 por sete estudantes da Universidade de Paris, os quais visavam desenvolver um trabalho de acompanhamento hospitalar e missionário, sob os votos de pobreza e castidade.
Além disso, a Companhia de Jesus foi um movimento oriundo da contrarreforma, cujo um dos principais objetivos era o de impedir o avanço da Reforma Protestante. Este grupo de sete estudantes liderados por Inácio de Loyola, organizou esta ordem com características de muita disciplina e rigidez, dando ênfase à absoluta abnegação, conforme já vimos anteriormente e à obediência total ao papa e às doutrinas católicas. Essa postura antiprotestante pode ser vista nas famosas palavras de Inácio de Loyola em sua obra Exercícios Espirituais: “Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado.” [1]
O Papa Paulo III confirmou a nova ordem em 1540, sendo a mesma reconhecida por bula papal. Inácio de Loyola foi escolhido como primeiro superior geral, enviou seus companheiros e missionários para vários países, primeiramente entre os europeus e em seguida entre os asiáticos, africanos e americanos, com o intuito de criar escolas e seminários.[2] Quando Inácio de Loyola morreu em 1556, já havia aproximadamente mil jesuítas em vários países da Europa e missionários na África, Índia, China, Japão, Paraguai e Brasil.
A Companhia de Jesus nasceu em um período muito fértil, pois a Europa estava vivendo o ápice da “Era dos descobrimentos” em busca de novas rotas comerciais para as Índias. As explorações marítimas pioneiras (Portugal e Espanha) levavam consigo equipes de desbravadores, representantes da Igreja Católica e posteriormente os missionários jesuítas.

Os primórdios da colonização
Em 22 de Abril de 1500 chegava a tripulação portuguesa com cerca de 1.350 homens e oito franciscanos liderados pelo frei Dom Henrique Soares de Coimbra, totalizando nove capelães, um para cada cento e cinquenta tripulantes. O capitão-mor das dez naus e das três caravelas fazia parte de outra ordem religiosa e militar, a Ordem de Cristo. Esta ordem foi criada em 1319 pelo Papa João XXII e foi através dela que a expedição portuguesa foi financiada.
Na véspera da partida da expedição de Cabral, houve uma cerimônia religiosa. Num Domingo, 8 de Março de 1500, o Bispo Diogo Ortiz benzeu a bandeira da Ordem de Cristo. A bandeira foi passada para Dom Manuel I e em seguida para o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.
No primeiro Domingo em solo brasileiro, dia 26 de Abril, os portugueses celebraram a também primeira missa, dirigida pelo Frei Henrique. Na primeira Sexta-feira da paixão, dia 01 de Maio, frei Henrique celebrou a segunda missa, a qual foi precedida por uma procissão. Participaram desta cerimônia mais de mil portugueses e aproximadamente cento e cinquenta nativos.
Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Cabral, escreveu sua famosa carta, datada de 1° de Maio de 1500, contando as coisas que viu em solo brasileiro. Caminha conta que durante a segunda missa, os nativos ajudaram a carregar a cruz para o local designado, ajoelharam-se, colocaram-se de pé e ergueram suas mãos imitando os portugueses em seus ofícios religiosos:
Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, assistindo a ela, perto de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós. E quando se chegou ao Evangelho, ao nos erguermos todos em pé com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram a assentar-se, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram todos assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.” [3]
Com esse episódio Caminha ficou entusiasmado e solicitou ao rei D. Manuel I que enviasse missionários para a terra, a fim de batizá-los o mais depressa possível: “O melhor fruto que nela se pode fazer, me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”[4]
Havia mais de um milhão e meio de habitantes divididos em mais de mil etnias. Dentre esses habitantes, estavam os aimorés, apinajés, caetés, botocudos, caipós, tupinambás, canelas, tupiniquins, cariris, tabajaras, goitacazes, guaianazes, guaranis e tupis.
A solicitação de Caminha para o envio de missionários não foi atendida e sua carta esteve arquivada por quase trezentos anos, tendo sido encontrada na Torre do Tombo em Lisboa pelo historiador espanhol Juan Bautista Muñoz no ano de 1793.[5]

A chegada dos Jesuítas no Brasil
Dom Manuel I não atendeu à solicitação de Caminha. Somente durante o reinado de seu sucessor, D. João III, é que chegaram novos religiosos em nossa pátria. João III declarou que “a principal coisa que me moveu a mandar povoar as ditas terras do Brasil, foi para que a gente delas se convertesse à nossa Santa Fé católica”.[6]
Em 1549 chegava ao Brasil um grupo de seis missionários liderados pelo Padre Manuel da Nóbrega. Os missionários vieram acompanhados de mais de mil pessoas, entre soldados, artesãos, colonos, funcionários e aproximadamente quatrocentos criminosos que haviam sido condenados a viverem fora de sua terra natal, além de Tomé de Sousa, que seria o primeiro Governador do Brasil.
Nóbrega e os outros missionários moraram entre os indígenas por quase um ano. A percepção inicial de Manuel da Nóbrega era de que os índios eram como “papel branco em que se poderia escrever à vontade”.[7] Ele pensava que teria um futuro promissor com aqueles índios: “estão estes Negros mui espantados de nossos officios divinos. Estão na egreja, sem ninguem lhes ensinar, mais devotos que os nossos Christãos”.[8]
Aparentemente seria fácil evangelizar os nativos “não alcançados”, mas logo Manuel da Nóbrega foi percebendo que não era tão fácil assim, pois os portugueses não eram cristãos tão devotos e os índios viviam se revoltando contra as constantes tentativas de serem escravizados.
Diante destas circunstâncias, Nóbrega solicitou que se enviassem novos reforços missionários, mesmo que fossem fracos de engenho e doentes do corpo. Nesta leva de missionários jesuítas aparece José de Anchieta, que na ocasião era noviço e que ficou apelidado depois de “Apóstolo do Brasil”. Anchieta sofria de espinhela caída.
Essa nova leva de missionários não se preocupava com a genuína conversão dos índios e sim na conversão religiosa dos mesmos. Entre 1558 e 1566, os jesuítas teriam batizado entre 12 a 15 mil índios. O padre Eusébio Dias Laços chegou a batizar num só dia 3.700 nativos. Anchieta disse feliz em uma de suas cartas: “Os que em toda esta província foram este ano, pelo trabalho dos nossos, arrancados à impiedade e purificados pelo batismo chegam a dois mil (tal é a bondade de Deus!)”,[9] mostrando certo conceito banalizado com respeito à ordenança de Cristo.

O legado dos jesuítas
Os jesuítas deixaram legados inquestionáveis. O que é discutido entre os historiadores, antropólogos, cientistas políticos, pedagogos, filósofos e cientistas da religião é a qualidade desses legados. A análise histórico-educacional se divide entre apologistas que avaliam a herança da Companhia de Jesus de forma positiva e críticos negativistas que olham a partir de um prisma pessimista.
O Dr. Ronaldo Vainfas, um dos maiores expoentes da historiografia nacional, disse em uma entrevista ao SESC-SP que, o papel dos jesuítas foi enorme,
“Do ponto vista do catolicismo, os jesuítas foram praticamente os únicos a defenderem a Igreja tridentina em colônia onde a própria instituição eclesiástica era débil. Assumiram a educação dos filhos dos colonos, formando quadros para a Igreja e para o Estado. Combateram o escravagismo dos colonos, embora utilizassem a mão de obra indígena em seus aldeamentos. Lutaram por um tratamento mais humano para os escravos africanos, embora considerassem a escravidão deles legítima. Tentaram, em resumo, combinar os valores espirituais da Igreja com os objetivos comerciais do sistema colonial. Conciliadores por vocação. Combatentes por tradição. Goste-se ou não dos jesuítas, é impossível minimizar a importância dos inacianos na nossa história.” [10]
Já a professora Maria Elizabete Xavier, Doutora em educação na área Filosofia e História da educação pela PUC/SP, comenta que a tarefa educativa dos jesuítas era “basicamente aculturar e converter ‘ignorantes’ e ‘ingênuos’, como os nativos, e criar uma atmosfera civilizada e religiosa para os degredados e aventureiros que para aqui viessem”. Em sua visão isso se tratava de “dominar, pela fé, os instintos selvagens dos donos de terra, que nem sempre recebiam pacificamente os novos proprietários”.[11]
Podemos verificar em vários documentos históricos a forma como os nativos eram descritos. Os negros e escravos eram constantemente chamados de “peças”. Os índios eram comparados a animais e deviam ser “amansados”, “domados” ou “domesticados”. Sweet diz que, são muito raras as citações de índios por seus nomes, salvo os caciques. Além disso, esses documentos não trazem nenhuma inferência de amizade estreita entre os padres e os índios, bem como não há citações de nenhum jesuíta aprendendo algo com algum desses povos. Para piorar, ainda eram encontradas pessoas no século XVIII que duvidavam que esses índios fossem de fato humanos ou que possuíssem a faculdade da razão.[12]
O professor João Antônio Monlevade, Doutor em Educação pela UNICAMP, faz sua crítica sobre esse tema dizendo que, “nos colégios jesuíticos (...) quem mandava eram os padres, e os que mandavam – falar português e aprender latim – tinham a virtude de revelar a ignorância dos alunos, inculcar a obediência, despertar o complexo de inferioridade e justificar a desigualdade e a exclusão”.[13]
Os jesuítas deixaram quatro legados incontestáveis: artístico, cultural, pedagógico e religioso. Vejamos um pouco sobre cada um deles.

O legado artístico
Quando os missionários jesuítas chegaram no Brasil encontraram os nativos que, tinham sua própria religiosidade. Embora Manuel de Nóbrega pensasse o contrário: “este gentio não adora nada, nem crê nada”[14], os índios possuíam um tipo de crença pagã, na qual adorava-se os elementos da natureza e buscava-se contatos com espíritos através de rituais, como beberragem de poções, danças e cânticos de invocação. Essas cerimônias eram lideradas por um pajé ou xamã que tocava um instrumento sagrado chamado maracá, uma espécie de chocalho.
Depois de uma melhor observação, os jesuítas perceberam que os índios possuíam sua maneira original de crenças e adotaram medidas evangelizadoras com linguagens artísticas para obterem êxito em sua missão catequética, fazendo missas cantadas e teatros. Manuel da Nóbrega descreveu a celebração de uma missa cantada, ocorrida em 19 de julho:
“Tivemos missa cantada com diacono e subdiacono; eu disse missa, e o padre Navarro a Epistola, outro o Evangelho. Leonardo Nunes e outro clerigo com leigos de boas vozes regiam o côro; fizemos procissão com grande musica, a que respondiam as trombetas. Ficaram os Indios espantados de tal maneira, que depois pediam ao Padre Navarro que lhes cantasse como na procissão fazia”.[15]
Nóbrega ainda elogia o padre Navarro a respeito da facilidade que teve para ensinar algumas crianças cânticos religiosos: “À noite ainda faz cantar aos meninos certas orações que lhes ensinou em sua lingua delles, em logar de certas canções lascivas e diabolicas que d’antes usavam”.[16]
Além da música, os jesuítas adaptaram nas missas peças teatrais baseadas em passagens dos Evangelhos. Eles escreviam essas peças em latim ou português e depois traduziam para o idioma nativo. Os índios gostavam de participar dessas encenações, pois os jesuítas permitiam que eles dançassem e cantasem da mesma forma como faziam em suas comemorações de vitórias guerreiras.[17]
Essas estratégias deram certo, como podemos ver em mais um trecho da carta do Padre Manuel: “Os mininos desta casa acustumavão cantar pelo mesmo toom dos Indios, e com seus instromentos, cantigas na lingua em louvor de N. Senhor, com que se muyto athraião os corações dos Indios”.[18]
O padre José de Morais conta que, em aldeias situadas desde a Amazônia até o Peru, havia nas igrejas muitos instrumentos musicais, tais como órgão e harpa e que os próprios nativos dessas regiões sabiam tocá-los.[19]
Marcos Holler, doutor em musicologia pela Unicamp considera que, embora seja difícil determinar a extensão do legado artístico dos jesuítas, a atuação musical deles “certamente influenciou a formação da cultura brasileira ou de identidades culturais regionais”.[20] Dizer se esse legado é positivo ou negativo é difícil, pois a musicalidade brasileira perdeu sua identidade há muito tempo e os ritmos contemporâneos, bem como suas letras, não mais expressam suas raízes jesuíticas, se é que já expressaram.

O legado cultural
O maior legado cultural dos jesuítas é o da arte barroca, estilo que predominou durante período colonial brasileiro. Podemos encontrar grandes exemplos dessa cultura na arte sacra, evidenciada em estátuas, pinturas e outras obras feitas principalmente para a decoração de igrejas, além da própria arquiterura dessas igrejas.
O barroco teve sua origem na Itália entre os séculos XVI e XVII, na mesma época em que estourava a Reforma Prostestante e teve grande utilidade para a Igreja Católica na Contrarreforma. Tal estilo conseguia influenciar os sentimentos das pessoas. Pinturas de Cristo açoitado, crucifixos ensanguentados, pessoas com olhar piedoso, dentre outras, eram capazes de estimular o estado emocional dos que as visualizavam.[21]
O estilo barroco europeu foi sendo aprendido pelos brasileiros e depois de algum tempo foi tomando características nacionais. Esta herança pode ser vista nas obras de Mestre Ataíde e principalmente de Aleijadinho, bem como na arquitetura de algumas cidades históricas do nordeste, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Cidades como Ouro Preto, Diamantina, Congonhas, Salvador, Olinda e São Luís são exemplos desse legado. Elas foram classificadas como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Cultura, Ciência e Educação – UNESCO.

O legado pedagógico
Um dos assuntos mais comentados acerca dos jesuítas é sobre o legado pedagógico. Existem centenas de livros a esse respeito, sem contar os milhares de trabalhos acadêmicos e é um fato incontestável.
Os missionários inacianos tinham por principal propósito “a propagação da fé e o progresso das almas na vida e doutrinas cristãs”[22]. Para que os nativos compreendessem essa fé os índios precisavam aprender a ler e a escrever. Ao longo de 20 anos, pelo menos cinco escolas de instrução elementar (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia) foram fundados pelos jesuítas. Além disso, eles ajudaram na fundação de cidades, dentre elas Salvador e São Paulo.
A principal crítica sobre a área pedagógica ou de doutrinação, como chamam alguns, se dá a respeito dos interesses da coroa portuguesa que enxergava no processo de educação dos índios uma espécie de domesticação dos mesmos. Sendo eles “amansados” seria mais fácil tirar vantagens econômicas da exploração agrária, latifudiária e escravista.
Outra crítica comum é feita no tocante à aculturação dos índios, conforme podemos verificar nas palavras da Professora Solange Zotti, Doutora em Educação na área de História, Filosofia e Educação pela UNICAMP: “praticamente toda a cultura pré-‘descobrimento’ foi massacrada, sufocada, reprimida (...) ocorrendo com isso, toda uma transformação, tanto em relação à produção dos bens materiais, quanto em nível de valores, costumes e crenças”.[23]
Entretanto, o que não é tão comentado assim é a forma como os índios eram constantemente citados pelos missionários: sem capacidade para ter fé, feras, bestas e mais próximos dos brutos animais do que os homens, dentre outras. Vendo a dificuldade que estava sendo ensiná-los, Nóbrega disse que
“A ordem que desejamos é fazer juntar o gentio, este que está sujeito em povoações convenientes, e fazer-lhes favores em favor de sua conversão, e castigar neles os males que forem para castigar, e mantê-los em justiça e verdade entre si como vassalos d’El-Rei, e sujeitos à Igreja (...) e desta maneira podiam ir cada dia ganhando gente e sujeitando-a ao julgo da razão”.[24]
O padre José de Anchieta compartilhava desse pensamento e disse que “nenhum ou certamente muito pouco fruto se pode colher deles, se a força e o auxílio do braço secular não acudirem para domá-los e submetê-los ao jugo da obediência. O que faz com que, como vivam sem leis nem governo”.[25]
A aparência piedosa dos padres logo se vai quando descobrimos que usaram de subterfúgios mais bestiais e animalescos do que o que eles mesmos abominavam dos ditos índios, torturando, segregando e forçando-os a trabalho escravo, sob o pretexto de catequiza-los. Em outros casos chegaram a apoiar o extermínio de tribos inteiras.[26]
Apesar de todas essas críticas, não podemos negar que os jesuítas foram os mentores da educação brasileira. Encontramos um pouco desse legado em universidades famosas tanto nacional como internacionalmente como a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ, a Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e vários outros colégios famosos.

O legado religioso
Conforme vimos, os jesuítas adotaram estratégias pragmáticas e com isso conseguiram batizar milhares de indígenas em poucos anos. Entretanto, esses mesmos supostos neófitos, não haviam tido uma genuína conversão, pois pouco tempo depois de terem recebido os ensinamentos cristãos voltavam a seus costumes pecaminosos,[27] por serem “inconstantes e não lhes entrar a verdadeira fé nos corações”.[28]
O sucesso missionário dos jesuítas foi superficial, aparente e insustentável. Essa ineficácia se deu por alguns motivos: primeiramente porque a igreja portuguesa demorou muito a enviar novos missionários ao Brasil e quando mandou durante o reinado de D. João III, o fez com péssimos representantes e isso quem diz é o próprio Manuel da Nóbrega: “cá há clérigos, mas é a escória que de lá vem”.[29]
Além disso, os batismos eram realizados com muita facilidade. O pastor Elben César fez uma observação pertinete sobre esse assunto: “o missionário europeu aplicava o batismo (...) não necessariamente porque o candidato se tornara cristão, mas para que ele se tornasse cristão (...) nem sempre havia alegria no céu quando alguém era batizado, mas certamente havia alegria na corte”.[30] Devia ser frustrante ver os nativos retornarem a costumes antigos como o narrado:
“Estes fazem umas cabaças a maneira de cabeças, com cabellos, olhos, narizes e bocca com muitas pennas de côres que lhes apegam com cera compostas à maneira de lavores e dizem que aquelle santo tem virtude para lhes poder valer e diligenciar em tudo, e dizem que falla, e à honra disto inventam muitos cantares que cantam diante delle, bebendo muito vinho de dia e de noite, fazendo harmonias diabolicas. Tem para si que seus santos dão a vida e a morte a quem querem“.[31]
Além dos índios brasileiros, havia a leva de escravos africanos. Se observarmos a mistura dessas três culturas dentro do campo religioso, conseguimos entender o porquê do grande misticismo que tem o povo brasileiro. O já citado historiador Dr. Ronaldo Vainfas, comentou na mesma entrevista que, “a ‘feitiçaria’ foi se moldando como religiosidade multiétnica desde o século 17, em especial as mesclas entre um catolicismo popular e diversas crenças africanas”.
Ainda segundo ele, um dos motivos para que isso tenha acontecido é porque a Igreja colonial sempre foi fraca, com o clero reduzido e com a maioria dos padres muito despreparados. Quando a Igreja se fortaleceu, no século XIX, em meio ao processo de “romanização” já era tarde, pois a “forma das identidades religiosas no Brasil se fez com moldes para crenças plurais”.
O legado religioso dos jesuítas foi um cristianismo superficial, nominal, sincrético, místico, supersticioso e completamente deformado, para não dizer falso. Dessa faceta religiosa colhemos frutos até os dias de hoje.

Considerações finais
Com a chegada dos europeus ao “Novo Mundo”, muita coisa nova também chegou com eles. Anchieta conta que, no ano de 1562 sobreveio uma grande enfermidade que causou a morte de aproximadamente 30.000 pessoas entre índios e escravos num espaço de quase três meses.[32] Além de doenças, os colonizadores também trouxeram violência física, emocional, sexual e conceitos corruptos ao Brasil.
Se pesarmos na balança toda a herança adquirida durante a fase do Brasil colônia, observaremos que os jesuítas tiveram de fato, grande peso e extrema importância na formação do processo pedagógico do nosso país. Já o reflexo religioso dessa pedagogia não é bom, pois enquanto atuavam em sua catequese, não tiveram força e nem sabedoria para impedir que o sincretismo se alastrasse pelas terras brasileiras.
Esse sincretismo não impactou apenas o catolicismo – que tem fiéis participantes, ainda que esporadicamente, de terreiros de umbanda, centros espíritas e de outras religiões distintas do cristianismo – mas também ao protestantismo, que em suas dissidências permitiu a entrada de práticas animistas e místicas, disfarçadas em um pseudo-pentecostalismo.
O legado pedagógico foi sendo aperfeiçoado com o passar dos anos, embora ainda esteja bem longe do que realmente é o desejável, mas o legado religioso precisa ser revisto, pois os impactos negativos continuam manchando o autêntico cristianismo.


Referências


[1] LOYOLA, Inácio de. Exercícios Espirituais. 365.1, 13ª regra.Edições Loyola, 1990.
[2] CÂMARA, Jaime de Barros. Apontamentos de História Eclesiástica. Vozes, 1957, p.267.
[3] A Certidão de Nascimento de um País. Disponível em:  http://www.senado.gov.br/senado/ilb/BrasildasLetras/mod1_01.html. Acesso em 06 de Junho de 2013.
[4] PEREIRA. Paulo Roberto. Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Lacerda Editores, 1999, p. 58.
[5] CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil. Dos Jesuítas aos neopentecostais. Ultimato Editora, 2000, p. 23.
[6] VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados; moral, sexualidade e inquisição o Brasil. Nova Fronteira, 1997, p. 26.
[7] NÓBREGA, Manuel. Cartas do Brasil e mais escritos. Ao Padre Simão Rodrigues, p. 20.
[8] Ibid, 15 de abril de 1549, p. 78. Ele chama de “Negros” aos índios, os “negros da terra”.
[9] ANCHIETA, José de. Cartas; correspondência ativa e passiva. Loyola, 1984, p. 383.
[10] Entrevista com Ronaldo Vainfas. Disponível em: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=424&Artigo_ID=6454&IDCategoria=7453&reftype=2. Acesso em: 03 de Maio de 2013.
[11] XAVIER, M. E. S. P.; RIBEIRO, M. L S, NORONHA, O. M. História da educação: a escola no Brasil. FTD, 1994, p.41.
[12] SWEET, David. Misioneros Jesuitas y Índios "Recalcitrantes" en la Amazonia Colonial. IN Portilla, Miguel León et alii (orgs). De palabra y obra en el nuevo mundo. Volume 1: Antropología y etnología. Siglo XXI de España Editores, 1992. pp. 272-276;
[13] MONLEVADE, João  Antônio; SILVA, Maria Abádia. Quem manda na educação no Brasil? Idea, 2000, p. 12.
[14] NÓBREGA, Manuel. Cartas do Brasil e mais escritos. Ao Padre Simão Rodrigues, p. 66.
[15] Ibid, p. 86.
[16] Ibid, p. 105.
[17] EISENBERG, José. As missões jesuíticas e o pensamento político moderno: encontros culturais, aventuras teóricas. UFMG, 2000, p. 84.
[18] NÓBREGA, Manuel. Cartas do Brasil e mais escritos. Ao Padre Simão Rodrigues, p. 39.
[19] Morais, José de. História da Companhia de Jesus na extinta província do Maranhão e Pará. Editorial Alhambra, 1987 [1759], p. 364.
[20] HOLLER, Marcos. Os jesuítas e a música no Brasil colonial. Unicamp, 2010, p. 12.
[21] DE LA FLOR, Fernando. Pasiones Frías – Secreto y disimulación en el Barroco Hispano. Marcial Pons. 2005, pp. 113-122.
[22] O’MALLEY, John W. Os Primeiros Jesuítas. UNISINOS, 2004, p. 39.
[23] ZOTTI, Solange Aparecida. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980. Plano, p.14.
[24] NÓBREGA, Manoel da. Cartas do Brasil, 1549-1560 – Cartas Jesuíticas I. Itatiaia, 1988, p. 173.
[25] ANCHIETA, José de. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Itatiaia, 1988, p. 55.
[26] SWEET, David. Op. Cit. pp,, 290-291.
[27] ANCHIETA, José de. Op. Cit. p. 102.
[28] LEITE, Serafim. Diálogo sobre a conversão do gentio. União Gráfica, 1954, p. 48.
[29] NÓBREGA, Manuel da. In: HOORNAERT, Eduardo et al. História da igreja no Brasil. Vozes, 1992, p. 184.
[30] CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil. Dos Jesuítas aos neopentecostais. Ultimato Editora, 2000, p. 57.
[31] CORREIA apud NAVARRO, Azpilcueta et al. Cartas Avulsas (1550-1568). Itatiaia, 1988, pp. 123-124.
[32] ANCHIETA, José de. Op. Cit. p. 356.